O ex-presidente do Kosovo Hashim Thaci foi condenado nesta quarta-feira (16) a 25 anos de prisão por um tribunal sediado em Haia, nos Países Baixos, em um veredito que aponta o envolvimento de antigos líderes guerrilheiros em graves crimes de guerra. Os juízes determinaram a culpabilidade de Thaci e de outros três ex-integrantes do Exército de Libertação do Kosovo (ELK) por delitos que incluem prisões ilegais, tortura, assassinatos e tratamento cruel contra civis e opositores durante o conflito na região dos Bálcãs.
Em Pristina, capital kosovares, centenas de apoiadores se reuniram na praça pública para acompanhar a leitura da sentença em telões, na expectativa de uma absolvição. Com o anúncio da pena severa, a multidão silenciou e reagiu com forte espanto e frustração. Para grande parte da população local, Thaci e os demais líderes do ELK são vistos como heróis nacionais e símbolos incontestáveis do movimento separatista e da independência do país proclamada em 2008.
Junto a Thaci, outros três ex-dirigentes guerrilheiros também foram sentenciados pela corte. Jakup Krasniqi recebeu pena idêntica de 25 anos de reclusão, enquanto Kadri Veseli foi condenado a 18 anos e Rexhep Selimi, a 13 anos. O tribunal concluiu que o quarteto teve contribuição direta e significativa para um objetivo criminoso comum voltado contra alvos políticos e militares na época da guerra, embora todos tenham sido absolvidos das acusações específicas de crimes contra a humanidade.
A investigação e o julgamento conduzidos pelas Câmaras Especializadas do Kosovo abordaram crimes cometidos tanto no território kosovares quanto em centros de detenção na vizinha Albânia. Os promotores apontaram a responsabilidade dos réus em mortes por motivação política que vitimaram civis sérvios, albaneses e ciganos. Por sua vez, a defesa argumentou que o ELK não operava com uma estrutura militar rígida e centralizada que permitisse aos dirigentes o controle direto sobre as ações individuais de seus combatentes.
A decisão gerou forte reação política imediata no país europeu. O ministro das Relações Exteriores do Kosovo, Glauk Konjufca, classificou o veredito como injusto, triste e imerecido para a história da luta de libertação nacional. A figura política de Thaci permaneceu central por décadas, tendo exercido os cargos de primeiro-ministro e presidente antes de renunciar ao mandato em 2020 para se entregar voluntariamente ao tribunal internacional em Haia, onde já cumpria prisão preventiva.
O tribunal especial, composto por magistrados internacionais e criado sob a legislação do Kosovo, carrega um histórico de profunda impopularidade e acusações de parcialidade política por parte da população local, especialmente devido ao uso de evidências fornecidas por Belgrado. A guerra do Kosovo, ocorrida no final dos anos 1990, resultou em aproximadamente 13 mil mortes e continua a deixar cicatrizes profundas nas relações diplomáticas e sociais entre kosovares e sérvios.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
