Dar à luz uma obra audiovisual pode se equiparar à complexidade de uma gestação real. É sob essa premissa que o cineasta Guto Parente desenvolve seu novo longa-metragem, intitulado ‘Morte e Vida Madalena’. Na trama, a protagonista — uma produtora que enfrenta gravidez de oito meses e múltiplos obstáculos — esforça-se intensamente para concluir o seu mais recente projeto nas telas.
Enquanto tenta coordenar as filmagens de uma ficção científica repleta de elementos absurdos, os bastidores do set revelam paralelos diretos com as vivências do próprio diretor, da produtora Ticiana Augusto Lima e de outros colaboradores de longa data. Para Parente, o fazer cinematográfico sempre esteve associado ao trabalho cotidiano e à dinâmica coletiva de uma trupe que se une temporariamente.
As raízes dessa trajetória remetem à fundação do coletivo independente Alumbramento, em 2006, marcado pela escassez de recursos financeiros transformada em estilo estético. O reconhecimento nacional veio em 2010 com ‘Estrada para Ythaca’, premiado no Festival de Tiradentes e estruturado a partir de improvisações e estética de baixa definição.
Atualmente sob a batuta da Tardo Filmes, produtora de Ticiana Lima, Parente amplia a escala de suas realizações sem abandonar os dramas íntimos. Em ‘Morte e Vida Madalena’, interpretada por Noá Bonoba, a narrativa se complica com o sumiço do roteirista ex-marido, a ascensão improvisada de um ator à direção e os inevitáveis conflitos da equipe técnica.
Além dos ecos do luto pela morte do pai do diretor — tema também presente em ‘Estranho Caminho’ —, a produção foi marcada por uma curiosa coincidência: logo após o término das filmagens, Lima descobriu que estava grávida, permitindo que sua bebê integrasse cenas adicionais do projeto.
Segundo a atriz Noá Bonoba, a personagem traz visibilidade ao trabalho muitas vezes invisibilizado de mulheres que sustentam produções nos bastidores. O filme consolida-se assim como uma reflexão contundente sobre as dores e a potência criativa do cinema independente brasileiro contemporâneo.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
