O novo longa-metragem do cineasta Guto Parente, intitulado “Morte e Vida Madalena”, propõe uma imersão profunda e agridoce nos bastidores da produção audiovisual independente no Brasil. A narrativa acompanha Madalena, personagem interpretada por Noá Bonoba, que atua como produtora de cinema e se prepara para as filmagens de uma ficção científica de baixo orçamento idealizada por seu falecido pai. Grávida, ela se vê na contingência de iniciar o set poucas semanas antes do parto, articulando perdas pessoais e novos começos.
Com coprodução entre Brasil e Portugal e ambientado no litoral cearense, o filme estreou no Festival de Documentário de Marselha e já entrou em cartaz na França. A trama acompanha o cotidiano da equipe desde a pré-produção até a gravação do plano final. Logo no primeiro dia de trabalho, a falsa impressão de que as intempéries climáticas seriam o principal obstáculo para a realização de um travelling na praia dá lugar a complicações severas de bastidores.
As dificuldades escalam rapidamente quando o diretor do projeto, que também é ex-marido de Madalena, desaparece sem deixar vestígios. Com a necessidade imperativa de iniciar as gravações e a verba obtida por meio de lei de incentivo ainda retida, a protagonista precisa gerenciar o caos financeiro e operacional da equipe. O roteiro equilibra tensão e momentos de humor, servindo como um retrato realista e desesperador da coragem exigida daqueles que produzem cinema independente no país.
O aspecto pedagógico da obra se destaca ao detalhar as funções de cada profissional da equipe técnica, desde a assistente de direção relutante em assumir o posto até o técnico de som que ameaça entrar em greve caso seus salários não sejam quitados. Em meio às crises, os diálogos expõem o desespero bem-humorado da produtora, que chega a brincar com a situação limite ao gerenciar os problemas do set sem recursos financeiros adequados.
Esteticamente, o filme também aposta na diversidade ao compor o elenco com pessoas queer, sem que a condição dos atores seja tratada como tema central. A atuação de Noá Bonoba sobressai pela força dramática e domínio vocal, conduzindo a narrativa ao lado da fotografia de Ivo Lopes Araújo, que transita entre a grandiosidade dos cenários abertos e o lirismo das cenas intimistas.
Ao evocar desastres históricos de produções cinematográficas famosas, como os percalços enfrentados em sets clássicos e contemporâneos, a obra de Guto Parente reafirma a união quase familiar de uma equipe unida pelo amor irracional à sétima arte, evidenciando simultaneamente a beleza e a precariedade estrutural do fazer cinematográfico brasileiro.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
