Diferente de outras grandes metrópoles globais, o centro de São Paulo concentra um rico patrimônio arquitetônico e uma infraestrutura de transporte completa, mas acabou se tornando sinônimo de esvaziamento, degradação e graves problemas de segurança ao longo dos anos.
Embora gestões anteriores tenham lançado diversas tentativas de recuperação a partir da década de 1990, nenhuma delas obteve sucesso duradouro. O principal obstáculo era a adoção de medidas isoladas, ignorando que a verdadeira reabilitação urbana exige a atuação coordenada em múltiplas frentes simultâneas, abrangendo desde segurança pública e assistência social até zeladoria, incentivos à moradia e fomento à cultura.
Nesse contexto, o cenário atual desperta otimismo cauteloso. Pela primeira vez, diferentes frentes estratégicas avançam de maneira integrada. O programa Requalifica Centro, por exemplo, tem atraído iniciativas da iniciativa privada voltadas ao retrofit, transformando antigos prédios de escritórios em complexos residenciais funcionais.
Complementar a essa iniciativa, o Programa de Subvenção Econômica permite que a prefeitura cubra até 25% dos custos de requalificação de edifícios. Somadas, essas duas frentes já viabilizaram a criação de mais de 5.200 novas moradias na região central, conforme apontam os registros oficiais.
Outro vetor importante é o Plano de Intervenção Urbana (PIU) Setor Central, que organiza os investimentos públicos em mobilidade e uso do solo. A desoneração do IPTU para imóveis tombados ou submetidos a retrofit também tem facilitado a conversão de estruturas comerciais vazias em habitações, processo que ganhará ainda mais força com a transferência de secretarias estaduais para um novo polo administrativo nos Campos Elíseos.
Apesar dos avanços significativos, gargalos regulatórios ainda precisam ser superados. A exigência de aprovação por múltiplos órgãos de preservação do patrimônio — com prazos e critérios distintos — frequentemente encarece os processos e afasta investidores, tornando urgente a criação de um protocolo de análise integrada entre as esferas municipal, estadual e federal.
Ademais, questões ligadas à outorga onerosa e às contrapartidas financeiras exigidas em certas áreas ainda impõem barreiras à viabilidade de novos empreendimentos. Superados esses entraves burocráticos por meio de um diálogo contínuo entre o poder público e o setor produtivo, São Paulo terá em mãos a oportunidade definitiva de resgatar o valor histórico e econômico de seu coração urbano.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
