Organizações criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) estão ampliando sua influência em Mato Grosso do Sul por meio de ações assistenciais, recrutamento de jovens e inserção na economia formal, conforme apontam levantamentos do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco). Embora autoridades reforcem que o Estado não está dominado, a dinâmica de atuação desses grupos passa por transformações significativas, com o CV avançando sobre municípios do interior e o PCC migrando para operações de maior escala e transnacionais.
Segundo a coordenadora do Gaeco e procuradora de Justiça, Ana Lara Camargo de Castro, o cenário envolve uma mudança no perfil das facções e na ocupação do território. Historicamente concentrada nas rotas de fronteira e no transporte de grandes cargas, a criminalidade organizada passou a estabelecer raízes nas relações cotidianas dos municípios sul-mato-grossenses, construindo redes de influência que muitas vezes antecedem os conflitos armados e as disputas violentas registradas no noticiário policial.
Entre as estratégias identificadas pelo Ministério Público está o reposicionamento do PCC, que reduziu parte de seu interesse no varejo cotidiano das drogas para focar em operações de grande porte, lavagem de dinheiro e comércio transnacional. Com esse espaço, o Comando Vermelho encontrou brechas para intensificar sua atuação no interior do Estado, buscando o controle de territórios locais e expandindo sua influência a partir de diretrizes que remontam a articulações iniciadas em sistemas prisionais da região.
Especialistas em segurança e criminologia apontam que a aproximação dessas facções com as comunidades muitas vezes ocorre de forma sutil, preenchendo lacunas deixadas pela ausência ou insuficiência de políticas públicas. A distribuição de cestas básicas, o patrocínio de eventos esportivos, a entrega de brindes em datas comemorativas e o suporte financeiro a famílias em situação de vulnerabilidade funcionam como ferramentas para criar laços de gratidão, dependência e, posteriormente, silêncio ou proteção social involuntária.
Além da assistência material, o recrutamento de adolescentes e jovens desponta como outra frente sensível dessa expansão. Impulsionadas pela promessa de dinheiro fácil e pela ostentação de status em redes sociais, novas gerações de integrantes acabam ingressando em estruturas hierarquizadas que os tratam como peças descartáveis. Paralelamente, a infiltração de recursos ilícitos em empresas locais e na economia formal consolida a lavagem de dinheiro e blinda as operações criminosas contra reações imediatas das forças de segurança.
Diante desse cenário, autoridades e especialistas destacam que o enfrentamento ao crime organizado em Mato Grosso do Sul exige mais do que ações repressivas pontuais. A inteligência policial, a cooperação regional e a integração entre órgãos de justiça são apontadas como essenciais para identificar e conter o avanço dessas redes de influência antes que a violência letal se instale de maneira definitiva nos municípios do interior.
Fonte: www.campograndenews.com.br
