Um dos dilemas centrais da nossa época reside na tendência de nos enamorarmos tanto por explicações estruturalistas que acabamos por ignorar as ações individuais. Conceitos como racismo estrutural, machismo institucional, heteronormatividade, capacitismo e pobreza sistêmica tornaram-se explicações padrão para diversos fenômenos sociais. É inegável que estudos científicos demonstram as consequências reais dessas forças sociais e econômicas sobre a vida em coletividade.
Contudo, o ponto crucial a ser ponderado é que, no final das cadeias causais, quase sempre existe uma pessoa real tomando uma decisão deliberada. Desprezar as forças estruturais é um erro evidente, mas ignorar o peso das escolhas individuais também carrega riscos imensos para a compreensão da realidade política e social do país.
O debate teórico clássico entre estrutura e agência exige uma posição equilibrada, uma vez que tanto o determinismo absoluto quanto o individualismo ingênuo falham ao tentar explicar a complexidade do mundo contemporâneo. Essa reflexão teórica serve para dimensionar adequadamente a parcela de culpa que cabe ao eleitorado na formação do cenário político nacional.
Muitos apontam, com razão, que mulheres e negros sofrem com uma nítida sub-representação na Câmara dos Deputados, sendo influenciados por fatores como a oferta de candidatos e o financiamento de campanhas. No entanto, o Brasil adota o sistema de votação proporcional com listas abertas, modelo que confere ampla liberdade de escolha ao eleitor para definir o tamanho de cada bancada partidária e a ordem dos postulantes.
Mesmo diante de filtros impostos pelo sistema, encontrar candidaturas de mulheres e negros não constitui uma tarefa inacessível. Se esses grupos, que somam mais de 50% do eleitorado brasileiro, considerassem prioritário eleger representantes com perfis semelhantes aos seus, a sub-representação nos espaços de poder certamente seria menor.
Do mesmo modo, a constatação consensual de que o Parlamento atual é deficiente e corre o risco de piorar na próxima legislatura passa necessariamente pelas escolhas da sociedade. Embora desigualdades, manipulações, propagandas enganosas e fake news exerçam influência negativa, o Legislativo reflete, em boa medida, as reais preferências do eleitorado, provando que governantes e congressistas não surgem do acaso, mas sim do voto popular.
Fonte: redir.folha.com.br
