Há uma sensação estranha atravessando o nosso tempo, como se estivéssemos cercados por vozes que gritam, opinam, acusam, corrigem e interrompem sem cessar. O mundo parece ter desaprendido a respirar entre uma frase e outra, gerando um clima emocional que invade redes sociais, famílias, ambientes de trabalho e pequenos encontros cotidianos com urgência e indignação.
O comportamento coletivo atual parece aplaudir quem reage rápido, fala mais alto e transforma qualquer discordância em batalha. Enquanto o colérico saudável constrói e tem iniciativa, o colérico exaltado consome e transforma pequenas divergências na intensidade de grandes traições públicas.
Nesse cenário, os fleumáticos — aqueles que observam antes de reagir e preferem compreender a confrontar — recolhem-se. A sociedade contemporânea confunde serenidade com omissão, fazendo com que as vozes equilibradas desapareçam gradualmente diante de caixas de som que premiam apenas a agressividade.
Quando os moderados abandonam a conversa, os extremos ocupam todas as cadeiras, gerando exaustão física e mental na população. O sistema nervoso humano não foi feito para viver em estado permanente de combate simbólico, resultando em ansiedade, insônia e irritabilidade difusa.
Para superar esse adoecimento coletivo da relação com o conflito, é preciso resgatar o valor da fleuma como maturidade emocional. A presença de equilíbrio e a firmeza aliada à gentileza são essenciais para que o tecido social não continue a se rasgar com conversas cada vez mais violentas.
Por fim, a convivência não pode ser tratada como conquista militar. É preciso que os serenos não desistam de falar e oferecer pausas, lembrando que um mundo vencido unicamente pelo barulho perde, inevitavelmente, a capacidade de escuta mútua e humanidade.
Fonte: www.campograndenews.com.br
