Especialistas da área de saúde e psiquiatria infantil têm demonstrado crescente preocupação em relação ao uso de medicamentos psicotrópicos para conter comportamentos corriqueiros na infância, como agitação escolar, dificuldades de concentração, irritabilidade ou distúrbios do sono. Segundo profissionais da área médica, antes de recorrer a uma receita, torna-se imprescindível investigar o que realmente está por trás de tais manifestações.
Na fase de crescimento, reações como desatenção ou impaciência não correspondem necessariamente a um distúrbio psiquiátrico. Fatores como privação de sono, conflitos familiares, quadros de ansiedade, bullying, excesso de tempo diante de telas e condições clínicas subjacentes — a exemplo de alterações na tireoide ou deficiência de ferro — frequentemente explicam essas mudanças comportamentais.
O risco da medicalização inadequada ganha relevância devido ao fato de o cérebro infantil e adolescente passar por um período de intensa maturação e transformações estruturais. Conexões neuronais e áreas ligadas ao controle de impulsos e ao planejamento ainda estão em desenvolvimento, o que torna o organismo jovem particularmente vulnerável à ação de substâncias psicoativas.
Especialistas ressaltam que uma queixa isolada nunca deve justificar o início de um tratamento medicamentoso. É necessário avaliar a intensidade, a frequência, o tempo de existência do comportamento e o impacto gerado na rotina da criança e de sua família. Noites mal dormidas, por exemplo, podem simular sintomas típicos de Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).
Por outro lado, profissionais ponderam que a medicação não deve ser totalmente demonizada, pois transtornos mentais genuínos existem e exigem intervenção baseada em evidências. A meta principal consiste em encontrar o equilíbrio adequado onde os benefícios esperados superem de forma clara os riscos potenciais para o desenvolvimento do paciente a longo prazo.
Outro ponto crítico levantado por especialistas é a prática da polifarmácia, ou seja, o uso simultâneo de diferentes medicamentos psicotrópicos. A chamada prescrição em cascata — na qual novos remédios são adicionados para combater os efeitos colaterais de fármacos anteriores — evidencia a necessidade de um acompanhamento rigoroso e coordenado, preferencialmente integrado pelo médico pediatra.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
