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“Carta de Veneza”: o que um documento de 1964 ainda exige de nós?

Artigo debate a leitura histórica, os limites e a atualidade da Carta de Veneza de 1964 a partir de encontro recente no Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP.

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“Carta de Veneza”: o que um documento de 1964 ainda exige de nós?

Em 19 de agosto de 2026, o segundo encontro do grupo de pesquisa Veredas, coordenado pela professora Aline Coelho Sanches no Instituto de Arquitetura e Urbanismo (IAU) da USP, colocou em pauta a relevância da Carta de Veneza. O evento contou com a participação on-line da professora Beatriz Mugayar Kühl, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU) da USP, que propôs uma leitura histórica e crítica do documento produzido em 1964, mantido como base do International Council on Monuments and Sites (Icomos).

Composto por 16 artigos breves, o texto resume os pontos consensuais do 2º Congresso Internacional de Arquitetos e de Técnicos de Monumentos Históricos, realizado na cidade italiana entre 25 e 31 de maio de 1964. Durante a atividade acadêmica, destacou-se a necessidade de compreender a produção humana do passado a partir de seu contexto, evitando tanto o descarte anacrônico quanto a defesa acrítica de suas formulações originais.

Beatriz reconstituiu as condições do pós-guerra que exigiram a criação de princípios compartilhados para retirar intervenções patrimoniais do arbítrio individual. Embora o documento carregue marcas do debate europeu da época e tenha nascido sob o clima da Guerra Fria, o congresso reuniu representantes de diversos continentes, inclusive do Brasil, atribuindo a cada nação a responsabilidade de aplicar os conceitos conforme sua própria cultura.

O debate também abordou os limites do texto de 1964, que se concentra nos monumentos históricos e deixa margem reduzida para a escala urbana. Essa lacuna foi posteriormente abordada por documentos como a Carta de Washington, de 1987, e os Princípios de La Valletta, de 2011, que aprofundaram preceitos sem substituir o documento fundador. No cotidiano acadêmico, contudo, observou-se que a aproximação dos estudantes com essas diretrizes ainda enfrenta desafios devido à separação entre disciplinas de projeto e preservação.

Em âmbito nacional, o diagnóstico sobre a leitura fundamentada do documento aponta que as dificuldades persistem e, em alguns casos, agravam-se pelo uso descontextualizado de referências teóricas. Especialistas alertam contra tentativas de revisão da Carta que desconsiderem as atas originais e cobrem do texto soluções para problemáticas que não compunham o horizonte de sua formulação na década de 1960.

Por fim, a discussão enfatizou que o uso adaptativo do patrimônio deve ser pautado pela lógica cultural e espacial, evitando que intervenções sejam instrumentalizadas unicamente pelo mercado. A atualidade da Carta de Veneza reside, portanto, na exigência de fundamentação e no estímulo ao juízo crítico diante de qualquer intervenção no patrimônio histórico.

Fonte: www.campograndenews.com.br

Escrito por

Jeder Fabiano