A discussão sobre o papel do psicólogo nas escolhas de vida dos pacientes ganhou destaque após relatos de pessoas que receberam orientações diretivas de profissionais de saúde mental. Casos como o de uma jovem de Brasília instruída a doar sua gata recém-adotada para priorizar o namorado evidenciam o risco de condutas que comprometem a autonomia individual e geram dependência no ambiente terapêutico.
De acordo com Joeder da Silva Messias, psicólogo e professor da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), o papel de quem conduz a terapia não é decidir pelo paciente nem apontar caminhos definitivos. Para o especialista, atitudes desse tipo limitam a capacidade de escolha da pessoa e podem transferir a responsabilidade pelas decisões vitais para o terapeuta.
Por sua vez, Ivani Oliveira, presidente do Conselho Federal de Psicologia (CFP), ressalta que preservar a autonomia do paciente não significa omissão profissional. Segundo ela, o psicólogo deve auxiliar o indivíduo a ponderar os fatores envolvidos em dilemas cotidianos — como o término de um relacionamento ou uma mudança de carreira —, sempre fundamentando a reflexão nos referenciais e na história de vida da própria pessoa.
O Código de Ética Profissional do Psicólogo, vigente desde agosto de 2005, estabelece diretrizes claras sobre o assunto. O texto determina que os profissionais considerem as relações de poder presentes nas consultas e atuem pautados no respeito à liberdade, à dignidade, à igualdade e à integridade. Além disso, proíbe explicitamente a indução de convicções políticas, religiosas, filosóficas ou morais.
Especialistas alertam que muitos pacientes chegam às sessões em busca de respostas prontas, o que pode facilitar a aceitação de posturas diretivas ou julgamentos por parte do terapeuta. Relatos de pacientes que se sentiram julgadas por suas escolhas afetivas demonstram que esse tipo de conduta pode quebrar o vínculo de confiança e levar à interrupção do tratamento ou à omissão de fatos importantes durante as consultas.
Caso haja suspeita de desvios éticos, os Conselhos Regionais de Psicologia estão habilitados a receber denúncias e apurar a conduta dos profissionais. Como medida preventiva, o CFP recomenda que os pacientes consultem o Cadastro Nacional de Profissionais de Psicologia antes de iniciar qualquer acompanhamento para verificar se o terapeuta está devidamente regularizado para o exercício da profissão.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
