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Quando a máquina começa a escrever o arquivo

Reflexão sobre os impactos da inteligência artificial na produção documental, propondo o conceito de 'tecnodocumento' diante dos novos desafios da memória e da arquivística.

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Quando a máquina começa a escrever o arquivo

O avanço das plataformas tecnológicas e da inteligência artificial impõe novas reflexões sobre a sociedade, a democracia e a preservação da memória. Em agosto de 2026, a ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, utilizou o termo ‘tecnoditadura’ para se referir aos efeitos dos algoritmos sobre o comportamento humano. A partir dessa premissa, surge a necessidade de compreender as transformações na própria documentação governamental e institucional, cunhando o conceito de ‘tecnodocumento’.

Enquanto a tecnoditadura diz respeito à concentração de poder nas infraestruturas tecnológicas e à interferência algorítmica, o tecnodocumento nomeia um problema documental: o momento em que a infraestrutura computacional passa a comandar ou participar ativamente da produção, transformação e manifestação de um registro. A tecnologia deixa de ser mera ferramenta e passa a integrar a estrutura do fenômeno que precisa ser compreendido.

Tradicionalmente, na arquivística, um documento nasce de uma ação realizada por uma instituição ou pessoa, gerando um registro integrado a uma rede de relações. No entanto, a inteligência artificial introduz uma camada complexa entre a ação e o registro final. Quando um sistema generativo produz relatórios, pareceres ou imagens, a manifestação depende de uma cadeia invisível composta por dados, modelos, versões, instruções e parâmetros de processamento.

Essa nova realidade transforma o documento, que deixa de ser apenas uma inscrição física e passa a incorporar o cálculo. Isso gera questionamentos fundamentais sobre a proveniência e a autoria, que agora se encontram distribuídas. A ausência de transparência sobre as condições técnicas de geração de um documento cria o risco de que sua gênese desapareça, tornando essencial a preservação de paradados e rastros computacionais.

Teóricos e pesquisadores de diferentes áreas já apontavam para as mudanças na cultura digital e na fabricação da memória. Desde as tecnoimagens antecipadas por Vilém Flusser até as análises de Eugênio Bucci e Giselle Beiguelman sobre a produção industrial do imaginário, percebe-se que as tecnologias reorganizam o que pode ser lembrado ou apagado. Na cultura algorítmica, os arquivos tornam-se espaços de recombinação, onde a máquina pode tanto recuperar quanto fabricar o passado.

Portanto, preservar um documento na era digital exige mais do que conservar o que aparece na tela; é preciso salvaguardar as condições do cálculo que permitiram a sua existência. O desafio para os arquivos do futuro será não apenas registrar o que foi dito, mas explicar como a máquina chegou a dizê-lo, garantindo a compreensão completa da memória institucional e social.

Fonte: www.campograndenews.com.br

Escrito por

Jeder Fabiano