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Espelho, espelho meu, por que a primavera católica não aconteceu?

Análise aponta que, ao contrário da narrativa de aproximação com o campo progressista, o avanço mais consistente do catolicismo brasileiro no século 21 tem ocorrido no espectro conservador e alinhado ao bolsonarismo.

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Espelho, espelho meu, por que a primavera católica não aconteceu?

A recente centralidade de Nossa Senhora Aparecida nas redes sociais levou a campanha do presidente Lula a tentar reivindicar proximidade com o eleitorado católico, explorando a maior intenção de voto nesse segmento. No entanto, há uma distância considerável entre essa estratégia e a realidade estrutural do catolicismo brasileiro contemporâneo.

A mobilização recente criou a falsa impressão de que o catolicismo nacional do século 21 funcionaria como uma linha de frente progressista, libertária ou associada a uma neoteologia da libertação. Pesquisadores de todo o país demonstram que, pelo menos na última década, o avanço mais consistente no campo político e na visibilidade pública veio do setor conservador.

Figuras como Ives Gandra Martins atuam como articuladores de think tanks católicos no Judiciário, enquanto nomes como Olavo de Carvalho, Bernardo Küster e Allan dos Santos consolidaram a identidade do catolicismo tradicional como base para aproximação com o bolsonarismo.

No âmbito legislativo, a senadora eleita Bia Kicis atua ao lado de Michelle Bolsonaro como articuladora da Frente Parlamentar Católica, somando-se a parlamentares como Chris Tonietto e Julia Zanatta, que também ostentam forte identificação com essa corrente religiosa conservadora.

Esse polo católico compartilha profundas afinidades com o conservadorismo evangélico em pautas fundamentais, a exemplo do aborto, da proteção à família e dos debates sobre gênero e moral sexual, distanciando-se de um confronto direto entre as duas frentes religiosas.

Apesar de lideranças proeminentes como o padre Paulo Ricardo, o padre Reginaldo Manzotti e Frei Gilson ainda não terem formalizado apoio a certas articulações políticas, a afinidade eletiva entre o bolsonarismo e esse segmento católico permanece sólida e estrutural.

Historicamente, a polissemia do catolicismo permite englobar diferentes antagonismos, como evidenciado na participação de mulheres católicas na Marcha da Família com Deus pela Liberdade, nas vésperas de 1964. Ignorar essa pluralidade compromete análises políticas assertivas.

Para que forças progressistas retomem o diálogo com as bases católicas que participaram da fundação do PT, torna-se necessário reconhecer que, nas últimas décadas, a direita bolsonarista demonstrou maior eficácia na conversão de identidade religiosa em linguagem política.

Fonte: www1.folha.uol.com.br

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