Barril a US$ 120? Analistas esperam mais altas no petróleo após ataques à ilha de Kharg
A semana do petróleo começa às 20h deste domingo – com a abertura das negociações do Brent, às 23h de Londres. Será a primeira sessão após o ataque americano ao principal hub de exportação iraniano, que vem operando apesar do conflito. Na sexta (13), o barril fechou a US$ 103.
Forças americanas atingiram alvos militares na estratégica Ilha de Kharg e ameaçou estender os ataques à infraestrutura de energia caso Teerã continue bloqueando o Estreito de Ormuz – a estreita passagem que liga o Golfo Pérsico ao resto do mundo.
Kharg é uma ilha a 25 km da costa iraniana. Ela serve como um hub de exportação porque o mar profundo ao redor da massa de terra é bom para receber superpetroleiros, que não navegam em águas rasas. O petróleo chega do continente via oleodutos e daí flui para os berços de atracação do lugar.
E mesmo com a guerra em andamento o Irã continua exportando petróleo, principalmente para a China – navios chineses e, claro, iranianos, têm passagem liberada pelo estreito de Ormuz. Seguem, portanto, indo e voltando à ilha de Kharg. Também foram identificados recentemente dois navios com destino à Índia, carregados de gás liquefeito de petróleo (GLP), e um petroleiro grego.
Caso esse fluxo pare também, o suprimento global de petróleo sofrerá mais uma baixa. Até agora, cortes nos países árabes já reduziram o output global em 10%.
O Irã afirmou que ataques à infraestrutura de petróleo em Kharg provocarão retaliação contra instalações de energia ligadas aos EUA na região.
Nos Emirados Árabes, as operações de carregamento no porto de Fujairah – outro hub estratégico – foram interrompidas após um ataque de drone nas primeiras horas de sábado (14), bloqueando os embarques pela única rota de exportação do país que não passa por Ormuz (fica de cara para o Oceano Índico, fora do Golfo). As atividades foram retomadas no domingo (15).
“Não acho que os mercados vão reagir bem aos últimos desdobramentos”, disse Tim Waterer, analista-chefe de mercado da KCM Trade. “Espero mais um início de semana tenso, com o destino da Ilha de Kharg ainda incerto, dada sua importância para o fornecimento global de energia.”
O Brent subiu 11% na semana passada, chegando a bater US$ 119,50 o barril, antes de fechar um pouco acima de US$ 103. Foi a semana mais volátil para o marcador europeu desde que os contratos futuros começaram a ser negociados, em 1988.
“Seguimos em disparada na rodovia, na faixa da esquerda, sem nenhum sinal de quando vamos conseguir pegar a saída”, disse Stephen Schork, fundador da Schork Group, com sede em Radnor, Pensilvânia, acrescentando que não ficaria surpreso de ver o petróleo abrir acima de US$ 117 o barril — “ou até além disso.”
Giovanni Staunovo, analista de commodities do UBS, concorda: “Com o fluxo de petróleo por Ormuz ainda restrito, o caminho de menor resistência para os preços do petróleo segue sendo o de alta”.
Para o Brasil, duas consequências diretas. De um lado, somos grandes exportadores de petróleo – e, obviamente, nenhum cliente que compra daqui precisa passar pelo Estreito de Ormuz.
Petrobras sobe 13% desde o início do conflito. Prio, 10%. Petroreconcavo vem mais atrás, com 5%. A exceção é a Brava Energia, que cai 4% no mesmo intervalo – ela vinha subindo também, mas entregou os pontos após divulgar um balanço mal visto pelo mercado na quinta (12).
Por outro lado, o país sofre com a alta nos preços internacionais do diesel, já que 25% do consumo nacional depende de importações.
O gargalo
O mercado global de petróleo foi jogado ao caos. A Agência Internacional de Energia alertou que a interrupção no abastecimento é sem precedentes, e os países-membros concordaram na semana passada em liberar 400 milhões de barris de reservas de emergência para tentar conter a alta dos preços.
O número pode impressionar, mas equivale a apenas quatro dias do consumo global.
Com o fechamento efetivo de Ormuz cortando as exportações marítimas dos demais países do Golfo, os tanques de armazenamento da região foram enchendo, forçando alguns produtores a reduzir a extração. A Arábia Saudita, o peso-pesado da região, vem aumentando o fluxo por um oleoduto que cruza o país até o litoral do Mar Vermelho, o que pode permitir exportações de cerca de 5 milhões de barris por dia.
A Ilha de Kharg é uma instalação vital para Teerã, pois por ela passa a maior parte das exportações de petróleo bruto do país. Ao anunciar o ataque, Trump disse que as instalações militares do local foram “destruídas por completo”. A agência de notícias estatal iraniana Fars informou que as exportações seguem normalmente após o ataque.



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