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Como fazer um bom filme no Everest – 22/04/2026 – É Logo Ali

Como fazer um bom filme no Everest – 22/04/2026 – É Logo Ali

Na semana que marca a abertura da temporada de escalada aos picos mais altos do Himalaia, no Nepal, diversos grupos aguardam ansiosamente para se dirigir ao cume do mundo. Vá lá que esta temporada já começou tumultuada, e não só pelos boatos de fraudes em resgates e envenenamento de montanhistas, que já foram devidamente esclarecidos e estão sendo apurados pelas autoridades nepalenses. Um novo problema surgiu justamente no principal chamariz do país, o monte Everest: os doutores do gelo, como são chamados os trabalhadores que instalam cordas e escadas sobre fendas de uma instável camada de gelo que se move constantemente, tiveram que interromper os trabalhos por causa de um serac, um imenso bloco de gelo da altura de um pequeno prédio, que ameaça despencar sobre a área mais próxima do Acampamento Base, por onde devem passar os escaladores rumo aos acampamentos superiores e, de lá, ao topo.

A prudência dos trabalhadores que viabilizam a ascensão aos acampamentos superiores da montanha se justifica pela memória do mais grave acidente ocorrido no Everest, no dia 18 de abril de 2014, quando seracs se soltaram em uma violenta avalanche de gelo que matou 16 sherpas justamente na cascata de gelo de Khumbu. A cascata é o primeiro e um dos mais perigosos desafios para quem enfrenta a escalada, pela mobilidade de seus blocos que não raro derruba as escadas metálicas ali instaladas sobre enormes fendas. Até a publicação deste texto, os doutores ainda aguardavam os humores do grande serac.

Mas, enquanto o bloco de gelo não decide se fica ou vai, dezenas de grupos já estão em fase de aclimatação às grandes altitudes. Eles estão buscando as montanhas mais próximas da vizinhança do Everest, subindo e descendo como manda o figurino de preparação para a empreitada. Em torno deles, centenas de trabalhadores se esfalfam para assegurar a melhor experiência com o máximo de segurança e conforto possíveis. Entre os que estão se preparando para a temporada, está o mineiro de Belo Horizonte Murilo Vargas, 45, que vem desenvolvendo uma tarefa diferenciada: ele participa como cinegrafista das expedições, com a experiência de quem já acompanhou grupos na Antártica, na Rússia, na Argentina e no Alasca, entre outros destinos. São imagens como as do vídeo que criou especialmente para a coluna, contando como é a preparação de quem tem a missão de captar as melhores imagens nos ambientes mais hostis da face da Terra.

Enquanto cuidava dos últimos preparativos para embarcar rumo ao Nepal, no proximo dia 25, Vargas conversou longamente com a coluna. E, além do vídeo, enviou um generoso material com detalhes que permitiriam uns bons pares de metros de conteúdo precioso que, infelizmente, não cabem numa única edição. Vamos, então, aos melhores momentos.

Como você começou a escalar?

Eu escalo desde 2001. Sou mineiro, comecei na Serra do Cipó, provavelmenteo melhor sítio de escalada em rocha do Brasil e um dos melhores da América Latina. Mas fiz minha introdução à alta montanha em 2005, na Bolívia, onde fiz meu primeiro curso de escalada em gelo, subindo ao Huayna Potosi, ao Condoriri e ao Pequeno Alpamayo.

E quando começou a trabalhar com o registro das escaladas?

Abri minha produtora audiovisual focada em filmes de escaladas em 2019, e desde então acompanho clientes em diversas montanhas do mundo. Mas a maioria de meus clientes tem sempre um grande objetivo, que é subir o próprio Everest.

Você ainda não subiu ao cume do Everest?

Não, ainda não. Tive minha primeira investida com um cliente em 2023, não deu certo, ele tentou no ano passado novamente e também não deu. O mais alto que cheguei foi a 8.200 metros de altitude, mas o sherpa que estava comigo teve edema pulmonar e eu não deixaria ninguém para seguir, era uma decisão ética de estar sempre ao lado de quem está ali para te ajudar. Mas eu tenho o sonho de escalar o Everest desde pequeno, quando nem escalava ainda em rocha.

E como é o mercado para um cinegrafista de alta montanha?

Eu não diria que é um grande mercado, porque é muito especializado. Como eu escalo há 26 anos, trago essa bagagem de diversas expedições de escalada em rocha, em big wall, mas o meio tem pouca concorrência de fato. Tem, obviamente, o risco, são poucos os que querem trabalhar nesse ambiente a sério. O risco está incluso no preço, mas pode ser mitigado quando você tem a devida preparação técnica, física e, principalmente, fisiológica. Eu me preparo muito. E, além de tudo, é minha paixão também. Quando comecei, eu falava assim, olha, eu trabalharia de graça pra subir o Everest. Hoje, obviamente, sou remunerado por isso, mas é, sem dúvida, um trabalho que me traz uma conexão muito importante e um conhecimento de mim mesmo. Quem trabalha na montanha é uma pessoa que se conecta muito com aquele ambiente, ele não está única e exclusivamente pelo dinheiro, mas também pela relação pessoal, pela conexão com aquele habitat, com aquelas pessoas. O Nepal, principalmente, é um lugar que tem uma energia de outro planeta.

Quem são seus clientes?

A maior parte são CEOs de grandes empresas que, além de poderem pagar os altos custos de uma expedição com o máximo conforto e segurança, têm pouco tempo para a expedição que normalmente, duraria até 50 dias, mas que hoje, graças às novidades tecnológicas, da preparação com equipamentos de hipoxia que reproduzem o tempo necessário para aclimatação, e a adoção de gás xenônio, que aumenta a hemoglobina do organismo, reduzem drasticamente o tempo de exposição necessário na montanha. Porque ninguém costuma ficar 50 dias longe da empresa, então essas expedições chamadas flash atraem esse perfil de público.

E qual é o projeto desta temporada?

Desta vez vou para o Himalaia com um olhar diferente, sobre as condições dos trabalhadores nas montanhas. Minha ideia é contar a história dos trabalhadores de altitude, que a maior parte das pessoas chamam de sherpas, mas nem todos são sherpas, às vezes são de outras etnias. O nome do meu projeto é Heróis Invisíveis porque a maioria dos montanhistas, principalmente os ocidentais, vão lá, chegam ao cume, na maior parte das vezes muito ajudados pelos trabalhadores e eles ficam invisíveis, nunca aparecem em nenhum vídeo. Então, meu projeto é justamente o contrário, é contar a história deles e sua importância dentro desse mundo de ambição de quem quer chegar no topo do mundo.

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