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Por que o cachorro caramelo virou alvo de disputa entre Brasil e México?

Por que o cachorro caramelo virou alvo de disputa entre Brasil e México?

Rafa Vitti e diretor Diego Freitas falam sobre ‘Caramelo’ e lições do filme

Longa acompanha um chef de cozinha que adota um cãozinho vira-lata enquanto passa por momento delicado de sua vida. Crédito: Imagens: Netflix Brasil / Reportagem: Laysa Zanetti

Os vira-latas cor de caramelo que vagam pelo Brasil aos milhões podem parecer heróis nacionais improváveis. Entre os brasileiros, porém, eles inspiram tanto orgulho quanto o futebol e o samba.

Conhecidos simplesmente como “caramelos” por causa de seus pelos castanhos, esses cães de rua são celebrados em memes brasileiros, estampados em camisetas, citados em músicas virais e homenageados com carros alegóricos no carnaval. Eles até estrelaram um filme da Netflix no ano passado e quase entraram para a moeda brasileira.

Mas agora as autoridades do México, outra nação latino-americana onde a reprodução descontrolada entre cães de rua resultou em uma população igualmente enorme de cães castanhos, classificaram o cão de rua caramelo como um tesouro mexicano, declarando-o uma raça nativa, assim como o Chihuahua.

No Brasil, a designação ganhou as manchetes recentemente e irritou os brasileiros, que dizem que um ícone nacional está sendo roubado deles.

 Por que o cachorro caramelo virou alvo de disputa entre Brasil e México?

Tiana em um parque em Copacabana, no Rio; para os brasileiros, cães vira-latas cor de caramelo são um ícone nacional. Foto: María Magdalena Arréllaga/The New York Times

“Como podem dizer que o caramelo não é brasileiro?”, disse Luciana Valle, de 57 anos, dona de uma animada cadela resgatada, cor de caramelo, chamada Madâ. “Ele é a cara do Brasil.”

Um estudo genético realizado no ano passado revelou que os cães são uma mistura de quase 300 raças da Europa, Ásia e Américas. Especialistas afirmam que a ancestralidade dos cães de rua remonta a animais trazidos por colonizadores portugueses e, posteriormente, por imigrantes da Itália, Alemanha, Espanha e Japão.

Com a chegada da industrialização, trabalhadores rurais migraram para as cidades brasileiras e trouxeram consigo cães que antes pastoreavam gado ou guardavam fazendas. Essas raças se misturaram com variedades menores mantidas como animais de estimação por moradores urbanos.

 Por que o cachorro caramelo virou alvo de disputa entre Brasil e México?

Luciana Valle brinca com sua cachorra Madá em um parque para cães no Rio. Foto: María Magdalena Arréllaga/The New York Times

Essa reprodução descontrolada acabou produzindo os vira-latas cor de caramelo que conhecemos hoje, disse Jaqueline Oliveira Rosa, geneticista da DNA Pets, um laboratório brasileiro de testes genéticos, que liderou o estudo. “A história do caramelo é a história do Brasil”, afirmou.

Cães vira-latas caramelo podem ser encontrados por todo o Brasil e frequentemente são alimentados e cuidados por moradores, tornando-se, na prática, cães de bairro.

Segundo especialistas, sua pelagem curta e castanha atrai menos pragas, os mantém frescos refletindo o sol tropical e serve como camuflagem contra predadores. A mistura de raças também os protege de algumas doenças genéticas, disse Rosa. “Isso os torna incrivelmente resistentes.”

Antes rejeitados e maltratados, esses cães de rua hoje representam a própria herança mista e a capacidade de adaptação dos brasileiros. Por isso, quando o Ministério Público do Meio Ambiente do estado do México, o mais populoso do país, declarou o “perro caramelo” uma raça mexicana em abril, isso causou grande repercussão no Brasil.

A agência estatal recusou o pedido de entrevista. No entanto, em seu comunicado, afirmou que a designação visava combater o estigma em torno dos cães vira-latas.

Defensores dos direitos dos animais no México afirmam que cães vira-latas cor de caramelo são tão comuns por lá devido à história e ao clima em comum.

O reconhecimento do cão caramelo no México foi provavelmente inspirado pelo movimento brasileiro em defesa desses animais de rua, disse Claudia Edwards, diretora do programa mexicano da Humane World for Animals, uma organização sem fins lucrativos.

“O Brasil foi o primeiro a reconhecê-lo, a colocá-lo no mapa”, disse Edwards. “O povo brasileiro deve se orgulhar muito disso.”

O cachorro caramelo não precisa pertencer a uma única nação, acrescentou ela. “É latino-americano!”

Em 2023, parlamentares brasileiros apresentaram um projeto de lei que concederia o status de patrimônio nacional aos cães de rua caramelo, mas a legislação não foi aprovada. Alguns estados, incluindo São Paulo, aprovaram posteriormente suas próprias leis declarando-os tesouro cultural.

Em uma manhã de domingo, a prevalência do cão caramelo estava em plena evidência no Rio de Janeiro.

Num parque arborizado para cães, meia dúzia de vira-latas cor de mel corriam e brincavam de luta. Tiana, uma animada cadela resgatada de 2 anos com orelhas pontudas, roía um galho.

“Ela é a estrela da casa”, disse Mônica Veiga, de 63 anos, revisora ​​de livros didáticos. “Sempre quisemos adotar um cachorro de rua cor caramelo.”

Ao longo de um calçadão, Marco Yoshizawa alimentava seu vira-lata de 8 anos, Zico, com a polpa de um coco recém-aberto. “Ele é um verdadeiro companheiro”, disse Yoshizawa, um catador de latas de 55 anos. “Ele vai a todos os lugares comigo.”

 Por que o cachorro caramelo virou alvo de disputa entre Brasil e México?

Marco Yoshizawa com seu cachorro Zico na praia de Copacabana, no Rio. Foto: María Magdalena Arréllaga/The New York Times

Mas mesmo com os cães vira-latas cor de caramelo se tornando mascotes nacionais, muitos ainda definham em abrigos, disse Juliana Camargo, fundadora da Ampara, a maior ONG de proteção animal do Brasil. “Ele ainda não é o primeiro a ser escolhido para adoção”, afirmou.

Existem mais de 20 milhões de cães de rua no Brasil, segundo um estudo global realizado por uma coalizão de grupos de proteção animal. Camargo estimou que mais de 90% deles eram caramelo.

Numa recente feira de adoção de animais, crianças se encantaram com um trio de filhotes pretos que lembravam um pouco labradores. Uma família acariciou um deles enquanto preenchia a papelada de adoção.

Poucos notaram os vira-latas de pelagem castanha que também buscavam um lar. Guadalupe, uma cadela vira-lata cor de caramelo resgatada de uma bairro com o mesmo nome, ofegava ansiosamente na sombra enquanto uma voluntária tentava acalmá-la.

“Estamos procurando alguém para adotá-la há um ano”, disse Desirée Rebello, de 39 anos, a voluntária. “Não é tão fácil.”

Para Camargo, a esperança é que, ao destacar os cachorros vira-latas caramelo, tanto no Brasil quanto no México, mais pessoas sejam convencidas a levar um para casa.

“Dói um pouco, porque sentimos que o caramelo é nosso”, disse ela. “Mas é por uma boa causa.”

O conteúdo foi traduzido com o auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial e revisado por nossa equipe editorial. Saiba mais em nossa Política de IA.

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