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Como gás obtido da decomposição do lixo virou opção de combustível limpo para o transporte público

Como gás obtido da decomposição do lixo virou opção de combustível limpo para o transporte público

Carro elétrico x gasolina: a briga que está revolucionando a indústria

Distância dos gastos para manter veículos elétricos e os de combustão interna, que há poucos anos era enorme, vem diminuindo a cada ano. Crédito: Frankito, o Curioso

Existe um esforço global para tentar reduzir as emissões de gases de efeito estufa responsáveis pelo aquecimento do planeta. Nesse cenário de emergência climática, fabricantes, encarroçadoras de ônibus, operadoras do serviço de transporte público de passageiros, além de prefeituras de várias cidades brasileiras e institutos de pesquisa, têm se unido para encontrar caminhos em busca de soluções menos poluentes e mais sustentáveis.

O desafio é enorme, já que, de acordo com dados da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), o Brasil tem uma frota composta por 107 mil ônibus urbanos, a grande maioria ainda movida a diesel. A idade média da frota é de 6,4 anos.

De acordo com o Plano Clima, divulgado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança Climática em dezembro de 2025, o setor de transporte público coletivo deve atingir, até 2035, ao menos 35% da frota composta por “veículos movidos a energias renováveis”. Isso equivale a cerca de 37 mil ônibus.

Biometano no transporte público

Sem abrir mão da eletrificação, que envolve altos investimentos para compra de ônibus elétricos (que chegam a custar de duas a três vezes mais que um modelo tradicional a diesel), além da instalação de infraestrutura elétrica nas garagens das operadoras do sistema, algumas cidades têm buscado outras alternativas para descarbonizar o transporte público.

Uma delas é o uso do biometano, que é obtido por meio da purificação do biogás (originado a partir da decomposição de lixo orgânico, esgoto ou agropecuária). Não a exclusão, mas a convivência entre essas duas tecnologias limpas parece ser o mais indicado na busca por uma mobilidade sustentável, com menos consumo de combustíveis fósseis.

“Um erro estratégico seria apostar em uma única tecnologia como solução universal”, diz Edmundo Pinheiro, presidente da NTU. “O Brasil não precisa escolher entre a eletrificação ou os biocombustíveis. Precisa combinar soluções, de forma inteligente, conforme a realidade de cada sistema.”

 Como gás obtido da decomposição do lixo virou opção de combustível limpo para o transporte público

Oito ônibus articulados movidos a biometano começaram a circular em Goiânia no final de março. Foto: Divulgação/Scania

Ônibus articulados movidos a biometano

Goiânia recebeu no final de março os primeiros oito ônibus articulados movidos a biometano que vão operar no BRT Leste-Oeste, também conhecido como Eixo Anhanguera, principal corredor de transporte público da região metropolitana. O sistema tem 68,6 km de extensão e atende mais de 3,6 milhões de passageiros por mês.

Uma das particularidades destes veículos, fabricados com chassi Scania e carroceria Marcopolo, são os cilindros para carregar o gás, feitos em fibra de carbono, mais resistentes, instalados no teto.

“O motor foi desenvolvido para rodar tanto com biometano como a gás natural”, diz o gerente de vendas de soluções para mobilidade Maurício Lucena, da Scania. A autonomia é de cerca de 400 km, segundo a fabricante, suficiente para rodar o dia inteiro. Os ônibus têm 19,22 metros de comprimento e capacidade para 145 passageiros.

Segundo Laércio Ávila, diretor executivo do Consórcio BRT, os oito ônibus iniciais fazem parte de um programa que prevê a inclusão de 501 veículos movidos a biometano até o final de 2027. “Nossa meta é reduzir em 95% as emissões de material poluente”, afirma.

Neste primeiro momento, o abastecimento dos veículos será feito por carretas de biometano comprimido. Em dois anos, de acordo com Ávila, será construída uma usina para produção de biometano no município de Guapó (GO).

Além dos movidos a biometano, a região metropolitana de Goiânia opera com 48 ônibus elétricos.

‘Descarbonização pragmática”

“A experiência de Goiânia com ônibus a biometano mostra, na prática, que a descarbonização no Brasil precisa ser pragmática”, diz Edmundo Pinheiro, presidente da NTU. “O biometano é uma solução disponível hoje, com menor custo de transição e alta aderência à realidade operacional das cidades brasileiras.”

“O gás permite reduzir emissões de forma relevante sem exigir uma ruptura completa de infraestrutura, além de aproveitar uma vocação natural do País: a produção de energia a partir de resíduos urbanos e agroindustriais. Isso conecta mobilidade, saneamento e economia circular”, acrescenta Pinheiro.

Planejamento e segurança no abastecimento

Uma dúvida que pode surgir com a substituição do diesel pelo gás é em relação ao abastecimento dos veículos nas garagens. Mas isso não preocupa neste momento.

“O biometano pode ser entregue nos pontos de abastecimento tanto pelo modal rodoviário, no início da operação, como por dutos utilizando o sistema de distribuição. Em geral, dutos enterrados com altíssima segurança”, explica Tiago Santovito, diretor executivo da Associação Brasileira do Biogás e do Biometano (ABiogás). “O tempo médio e formato de enchimento do tanque a biometano é muito similar ao uso do diesel, sem interrupção ao longo do dia”, explica.

Eletrificação da frota em São Paulo

 Como gás obtido da decomposição do lixo virou opção de combustível limpo para o transporte público

Cidade de São Paulo tem 1.259 ônibus elétricos: 1.070 movidos a bateria e 189 trólebus Foto: Renato Pinheiro/PrefSP

A cidade de São Paulo tem apostado na eletrificação. Segundo dados da Prefeitura, há 1.259 ônibus elétricos em circulação na cidade (a maior frota do País), sendo 1.070 a bateria e 189 trólebus (modelos antigos que rodam há décadas).

Isso representa cerca de 10% da frota operacional diária do município, composta por 12.123 ônibus, de acordo com dados da SPTrans.

Ainda segundo a Prefeitura, “o Plano de Metas 2024-2028 estabelece a substituição de 2.200 ônibus da frota por veículos movidos por matriz energética limpa até o final da gestão”.

No ano passado, o prefeito Ricardo Nunes (MDB) assinou decreto que institui o programa Bio SP, iniciativa que estabelece regras para a aquisição de biometano e sua incorporação progressiva à frota de transporte público e de veículos de coleta da cidade.

Transição energética no transporte público

De acordo com especialistas, a transição energética no setor de transporte passa por um momento importante. “Estamos vivendo a inflexão de um processo que sempre foi baseado em diesel”, opina Marcel Martin, diretor-geral do ICCT Brasil (Conselho Internacional de Transporte Limpo). “O setor está vendo outras possibilidades de rotas tecnológicas para a descarbonização.”

Para Martin, até os desafios que a cidade de São Paulo tem enfrentado em relação à implementação de infraestrutura de recarga elétrica nas garagens dos coletivos serve de aprendizado. “São Paulo foi pioneira na eletrificação. A experiência mostrou que a descarbonização não tem uma solução única.”

“O setor está vendo outras possibilidades de rotas tecnológicas para a descarbonização.”

Marcel Martin, diretor-geral do ICCT Brasil (Conselho Internacional de Transporte Limpo)

Outras cidades também têm demonstrado interesse em adotar a tecnologia do biometano. No final de março, Londrina (PR) começou a testar um micro-ônibus que vai circular durante 30 dias por várias linhas da cidade. Serão realizados testes para avaliar consumo, desempenho por quilômetro rodado, autonomia, capacidade, tempo de abastecimento e dirigibilidade, entre outros itens.

Em Suzano, na Grande São Paulo, o primeiro ônibus a biometano da cidade começou a rodar em 2025. Rio de Janeiro e Curitiba também avaliam utilizar o gás que vem do lixo.

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