Cruzeiro x Boca e PSG x Bayern são o mesmo esporte? – 29/04/2026 – Marcelo Bechler
Na terça-feira (28) à tarde, PSG e Bayern fizeram um jogo de nove gols na semifinal da Liga dos Campeões. Horas depois, o Cruzeiro venceu o Boca Jrs. na Libertadores da América por 1 a 0. Foi difícil assistir ao segundo jogo após o que o futebol nos ofereceu no primeiro horário.
Eu não irei entrar no debate de ser um “outro esporte” ou da qualidade técnica dos jogadores. Para mim, o que deveria ser inegociável é a vontade de jogar e oferecer um bom espetáculo. E aí o confronto sul-americano ficou muito atrás.
O debate técnico é dispensável, porque o futebol europeu se forjou na contratação de brasileiros e argentinos. Curiosamente, Bayern e PSG tinham protagonistas alemães, como Kimmich e Musiala, franceses. como Olise e Dembele, o inglês Harry Kane e o georgiano Kvaratskhelia. Mas em sua essência os supertimes da Europa contam com muita matéria-prima que poderia dar mais qualidade aos jogos da Libertadores. Os melhores jogos estão lá porque os melhores jogadores estão lá.
O meu ponto, que já abordei em colunas anteriores e será uma cruzada da qual não estou disposto a abrir mão, é a necessidade de oferecer ao público um bom entretenimento. No Mineirão, o Boca Jrs. entrou em campo para sujar o futebol. A tática é a de sempre: faltinhas, encontrões, simulações, provocações e cinismo. O Cruzeiro, erradamente, porque tem futebol para vencer apenas em campo, comprou a ideia —distraído por querer ter espírito de Libertadores— e o que era para ser o encontro de duas camisas pesadas virou algo “inassistível”.
O torcedor apaixonado só quer que o seu time vença os jogos. Quer a linha de chegada e não se importa com o caminho para cruzar a meta. Mas o torcedor de futebol só irá ligar a televisão se for para ver um bom espetáculo. E quem entra em campo joga para a necessidade resultadista do seu torcedor, mas também tem responsabilidade com o esporte. Basicamente, fazer o que os argentinos propuseram é um desrespeito ao jogo.
Em Paris, a bola esteve em jogo em 54% dos 99 minutos de tempo corrido. O jogo teve uma paralisação por VAR no primeiro tempo e outra no segundo. Houve lances difíceis, em que o árbitro foi respeitado para tomar decisões difíceis, que iriam agradar mais a um lado que ao outro. É o trabalho dele e cabe aos jogadores entenderem e o ajudarem a fazer o seu dever da melhor forma possível. O jogo também foi paralisado nove vezes por… comemorações de gols. Se um minuto foi perdido a cada bola na rede, foram 10% do tempo de partida que se perderam apenas nesse quesito.
Quando a bola não rolou no jogo da Liga dos Campeões foi porque os jogadores estavam celebrando o maior momento do esporte. No Mineirão, tivemos um gol, nenhuma intervenção do VAR e 44% de bola em jogo. Na primeira etapa, 40%. Foram 20 minutos de “futebol” nos 50 de tempo corrido.
Eu entendo que Cristian, Bareiro, Fagner, Delgado etc. não consigam desempenhar como Vitinha, Olise ou Harry Kane, mas eles precisam tentar jogar e se preocupar só em jogar. O que nos faz gostar de futebol é o 5 x 4 de Paris. É por isso que hoje vemos crianças com camisas de times europeus e não de equipes brasileiras. O videogame não é o maior responsável, como alguns tentam apontar, pela guinada dos mais jovens ao futebol internacional.
Estamos destruindo nosso produto e estamos transferindo a paixão dos novos torcedores para um futebol muito distante da nossa realidade.
Colunas
Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.



Publicar comentário