É urgente enfrentar o crime organizado e o Brasil tem negligenciado o combate às facções
A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas pode ser interpretada como uma intromissão, uma pressão geopolítica ou mesmo uma demonstração de força de Washington sobre Brasília. Não restam dúvidas de que a polarização política também faz parte da equação que levou a tal classificação. Por outro lado, temos que admitir que chegamos a esse ponto porque nós mesmos não fomos capazes de enfrentar com seriedade o que temos dentro de casa.
O Brasil tem negligenciado o combate às organizações criminosas há anos. Não faltam diagnósticos. Não faltam relatórios, comissões parlamentares, estudos acadêmicos e reportagens que documentam a expansão do PCC e do CV pelo território nacional, e para além dele. O que falta é vontade política real, estrutura institucional à altura do desafio e uma resposta efetiva que não se limite a operações pontuais ou a disputas de narrativa eleitoral.
O crime organizado brasileiro não é mais um fenômeno de periferia urbana. É uma estrutura de poder que controla territórios, financia campanhas, corrói instituições e projeta influência sobre países vizinhos. Quando os Estados Unidos classificam essas organizações como terroristas, estão reconhecendo o que nós deveríamos ter reconhecido, e combatido, muito antes.

Muro com pichações alusivas ao PCC Foto: MARCIO FERNANDES/ESTADÃO
Isso não significa aceitar passivamente a agenda de Washington nem abrir mão da soberania nacional no campo da segurança pública. Significa, ao contrário, que o Brasil precisa tomar a dianteira. Precisamos ser nós a liderar o enfrentamento dessas organizações, não como reação a pressões externas, mas porque é nossa responsabilidade, com nosso povo, em nosso território.
Para isso, é urgente que o País supere o ciclo vicioso em que se encontra: debater segurança pública apenas quando a violência transborda para as manchetes, e abandonar o tema assim que a comoção passa. O combate ao crime organizado exige continuidade, inteligência, cooperação entre entes federativos e investimento de longo prazo, não apenas em policiamento, mas em justiça, em sistema prisional e em alternativas econômicas.
A classificação norte-americana dói. Mas talvez seja exatamente essa dor que o Brasil precise sentir para começar, de fato, a levar a sério o que há muito deveria ter sido prioridade.



Publicar comentário