O primor estético de “Limite”, o único filme concluído em vida por Mário Peixoto, esteve por diversas vezes ameaçado pelo esquecimento e pela degradação da película. Concluída em 1931, quando o diretor tinha apenas 22 anos, a obra-prima do cinema mudo brasileiro nasceu cercada de anacronismos ao adotar uma linguagem experimental em plena chegada das produções sonoras.
Devido à sua estética poética e vanguardista, o longa permaneceu sem distribuição comercial durante décadas, sendo exibido esporadicamente por amigos do cineasta enquanto os ares tropicais e a instabilidade do nitrato de celulose corroíam as latas. A obra só escapou do sumiço definitivo graças à dedicação obsessiva de Saulo Pereira de Mello, que assumiu o restauro como missão de vida após se encantar com o filme em 1953.
Essa corrida contra o tempo ao longo de oito décadas é o tema central do livro “Mapa de ‘Limite'”. A publicação reedita o guia plano a plano elaborado artesanalmente por Mello em 1979 e traz ensaios críticos, documentos e uma reconstituição gráfica inédita da sequência perdida, a partir de sete fotogramas sobreviventes e de um story-board de 1987.
O volume ganha lançamento oficial na Cinemateca Brasileira, instituição que passará a abrigar também o Arquivo Mário Peixoto. O acervo intelectual e afetivo do diretor foi reunido por Mello e transferido com o apoio de cineastas e admiradores da obra, garantindo preservação pública e acesso a novos pesquisadores e entusiastas da Sétima Arte.
A trajetória de salvamento da obra envolveu múltiplos esforços técnicos, desde as primeiras revelações empíricas de Saulo Pereira de Mello em sua mesa de jantar até as restaurações digitais avançadas conduzidas nas últimas décadas. Com o respaldo de fundações internacionais e parcerias com especialistas, o filme recuperou sua trilha sonora original e os contrastes visuais concebidos por Edgar Brasil na fotografia.
Mesmo após o falecimento de Mello em 2020, os desdobramentos em torno do legado de “Limite” continuam a revelar nuances estéticas e discussões históricas. A chegada definitiva do acervo à Cinemateca consolida o valor imortal de uma fita que desafiou o tempo e se consagrou como patrimônio máximo da cinematografia brasileira.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
