Apenas dois Estados tiveram alta de homicídios no Brasil, na contramão do restante; veja quais
Por que ‘homicídios ocultos’ praticamente dobraram no Brasil; entenda o que são e motivo do aumento
Atlas da Violência aponta crescimento das mortes violentas por causa indeterminada no País. Crédito: Mariana Cury
O Atlas da Violência, estudo realizado anualmente pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e divulgado nesta terça-feira, 26, aponta que somente dois Estados tiveram aumento nos casos de homicídio registrados em 2024 em relação ao ano anterior.
- Com quatro entre as dez cidades mais violentas do País, o Ceará registrou 3.163 assassinatos no ano de análise, alta de 5,7% ante 2023. Com isso, a taxa de casos para cada 100 mil habitantes no Estado saltou para 34,3;
- Já no Maranhão foram 2.167 ocorrências, aumento de 7,9%. Por lá, a taxa, por sua vez, foi para 31,1;
- De resto, todas as outras unidades federativas tiveram melhora ou mesmo manutenção nos números. Em São Paulo, os registros foram de 3.043 para 3.041, o que manteve a taxa sem oscilar e como a menor do País (6,6).
Em nota, Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará afirma que municípios cearenses mencionados no estudo como os mais violentos tiveram diminuição nos homicídios e em crimes contra o patrimônio no período recente. Já o governo do Maranhão afirma que, ainda com a alta apontada pelo Atlas, o Estado segue com os menores índices de homicídios da região Nordeste (mais abaixo).
Como mostrou o Estadão, o Brasil registrou 42.590 homicídios em 2024, queda de 6,9% em relação ao ano anterior, segundo o Atlas. Foram 20,1 casos para cada 100 mil habitantes, redução de 7,4% em relação a 2023. Com isso, o indicador chegou mais uma vez ao menor patamar da série histórica, iniciada há uma década.
Pesquisadores envolvidos no estudo alertam para o crescimento das mortes violentas por causa indeterminada (MVCI) e dos chamados “homicídios ocultos”, que seriam casos que não foram contabilizados oficialmente (entenda melhor abaixo). Complementam ainda que a sensação de insegurança relaciona-se também a outros tipos de crime.
Em termos gerais, o Atlas indica que as quedas mais intensas ocorreram no Amapá (-30,0%), Tocantins (-26,7%), Sergipe (-24,8%) e Roraima (-22,8%). No caso do número absoluto de homicídios, as maiores diminuições foram no Rio de Janeiro, com menos 772 casos, na Bahia, com menos 555, e no Rio Grande do Sul, com redução de 280.
As ocorrências, ainda assim, não alteram de forma drástica o retrato dos homicídios no Brasil. Marcados pela consolidação de facções como Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) nos últimos anos, Norte e Nordeste seguem concentrando as maiores taxas de homicídios do País – Salvador, inclusive, é a única capital entre as 20 cidades com 100 mil habitantes ou mais com as maiores taxas de homicídio.
Conforme o Atlas, praticamente dois terços das unidades federativas (18) apresentaram taxa de homicídios acima da média nacional. Amapá (45,7), Bahia (40,9), Pernambuco (37,3) e Alagoas (35,9) têm os maiores indicadores. São Paulo, por outro lado, teve o menor índice (6,6), seguido por Santa Catarina (8,1), Distrito Federal (10,3) e Minas Gerais (12,8).
“A análise dos últimos cinco anos revela um quadro mais contrastado. Enquanto o Brasil reduziu sua taxa em 8,6% entre 2019 e 2024, algumas Unidades Federativas experimentaram recrudescimento da violência letal”, diz o estudo. Os principais aumentos foram no Ceará (+28,0%), Maranhão (+25,9%) e Piauí (+20,5%). Já os Estados com os maiores recuos foram Acre (-47,9%), Sergipe (-47,0%), Goiás (-43,0%).
Brasil passa por mudança em padrões de criminalidade
Dados do Atlas da Violência mostram que somente dois Estados tiveram aumento nos casos de homicídio registrados em 2024 em relação há um ano antes. Foto: BOPE/Divulgação
Os pesquisadores destacam que, ainda que o Brasil tenha chegado ao menor patamar desde 1998 – embora o estudo só compile dados de 2014 em diante –, a redução recente não foi homogênea e segue em patamar elevado, especialmente no Norte e no Nordeste. Alertam também que a alta de outras modalidades indica um “novo momento da criminalidade no País”.
“É uma queda histórica, mas, ao mesmo tempo, a gente percebe uma sensação de insegurança crescente na sociedade”, afirma ao Estadão Daniel Cerqueira, pesquisador do Ipea e coordenador do Atlas da Violência.
Entre outros pontos, o estudo destaca que, nos últimos anos, vem ocorrendo uma forte mudança no modus operandi dos crimes contra o patrimônio. “Se antes os indivíduos geralmente sofriam crimes contra o patrimônio nas ruas, hoje não é suficiente se resguardar em condomínios”, afirmam os pesquisadores no estudo.
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“Com os crimes cibernéticos, o espaço de vitimização é mais difuso – independentemente do endereço de residência – e os valores das perdas potenciais são muito maiores”, acrescentam. O Pix, ferramenta de pagamento instantâneo do Banco Central, tornou as transações bancárias muito mais ágeis.
Conforme as últimas edições do Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os estelionatos superaram a marca dos dois milhões de casos no País nos dois últimos anos de análise, 2023 e 2024. Ao mesmo tempo, as cadeias de receptação ficaram mais dinâmicas, sobretudo nas grandes cidades.
Em paralelo à mudança do modus operandi do crime contra o patrimônio e do seu espaço de atuação, houve também uma transformação na governança e penetração territorial do crime organizado, que antes era centrado nas facções que operavam o varejo das drogas nos territórios periféricos das grandes cidades, segundo os pesquisadores.
“De forma paulatina, como ocorre principalmente no Rio de Janeiro, assistimos à expansão de áreas em que o controle territorial armado do crime foi a ponta de lança para a expropriação econômica e de outros direitos fundamentais dos residentes locais”, afirmam os pesquisadores. Esse somatório de fatores, sustentam eles, são alguns dos pontos que ajudam a explicar o aumento da sensação de insegurança sem necessariamente haver avanço dos homicídios.
Piora na qualidade dos dados é ponto de atenção
Outro ponto considerado sensível pelos pesquisadores é o que definem como uma piora da qualidade dos dados da saúde: o número de mortes violentas por causa indeterminada, as chamadas MVCI, subiu mais de 23% entre 2023 e 2024. “É o recorde histórico. Foi de 13.896, em 2023, para 17.207, em 2024, o que foi algo até surpreendente”, afirma Cerqueira.
As mortes violentas por causa indeterminada são uma classificação utilizada quando o Estado não consegue identificar a causa básica do óbito – se decorrente de acidentes, suicídios ou homicídio –, o que pode prejudicar no entendimento do cenário.
Segundo Cerqueira, não se sabe exatamente os motivos que levaram ao aumento expressivo desse indicador em 2024. Mas, em geral, duas razões levam a essa alta: a incapacidade de elucidação de determinados casos e problemas relacionados à troca de informações entre os órgãos governamentais – em ocorrências em que o médico-legista emite um laudo cadavérico e não sabe exatamente as circunstâncias de determinada morte, é preciso que a polícia complemente as informações posteriormente.
Para dimensionar os impactos desse problema, os pesquisadores à frente do Atlas desenvolveram, eles próprios, um modelo que permite estimar, por meio de técnicas de machine learning (aprendizado de máquina), quantas dessas mortes violentas por causas indeterminadas podem ter sido “homicídios ocultos”.
“A gente olha as pessoas que morreram por morte violenta e as características das vítimas e também do incidente em si”, afirma Cerqueira. A partir desse conjunto de variáveis, o modelo indica quais casos podem ter sido assassinatos na prática, driblando possíveis subnotificações. O cálculo não é inédito – já foi feito também em outras edições da pesquisa – o que permite também comparar os dados com outros anos.
Homicídios ocultos praticamente dobraram em 2024
O Atlas estima que, em 2024, o Brasil teve 7.083 casos de homicídios ocultos, alta de 88,6% em relação aos cerca de 3,7 mil registros do ano anterior. Com isso, a taxa desse indicador para cada 100 mil habitantes saltou de 1,8 para 3,3. Como consequência, os homicídios ocultos passaram a responder por 14,3% dos homicídios estimados em 2024 – em 2023, essa parcela era de 7,6%.
Diante disso, os pesquisadores calculam que, no ano de análise, o Brasil pode ter tido, na verdade, 49.673 homicídios estimados, que correspondem à soma entre os casos oficialmente registrados e os homicídios ocultos. O número representa um leve aumento em relação às 49,5 mil ocorrências estimadas de 2023, com uma variação de 0,3%.
Ao mesmo tempo, a taxa de homicídios apresenta uma queda de 0,4%, caindo de 23,5 para 23,4 assassinatos para cada 100 mil habitantes. “É uma queda histórica que estamos vivenciando, mas que, principalmente neste último ano (de análise) acabou ficando um pouco na sombra da piora da qualidade dos dados”, afirma Cerqueira.
Territorialmente, o retrato é parecido ao menos em uma das pontas. As maiores taxas ainda foram observadas em Estados de Norte e Nordeste, com destaque para Amapá (47,1), Ceará (43,7) e Bahia (42,6). Por outro lado, Santa Catarina (8,8) e Distrito Federal (10,9) passaram a ter os menores indicadores. Com o maior número absoluto de homicídios ocultos (1,8 mil casos), São Paulo (12,8) ficou na terceira colocação.
O Atlas da Violência, lançado há uma década, tem o objetivo de retratar a violência no Brasil principalmente a partir dos dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) e do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde.
É uma metodologia diferente da utilizada em outras publicações de relevância, como o Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), que já tabulou os dados de homicídios de 2024, mas que, para tal, se baseou nos dados das forças policiais.
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará afirma que, neste ano, com os investimentos realizados pela gestão estadual e a intensificação das ações policiais, os municípios cearenses mencionados no estudo apresentaram diminuição nos índices de mortes por crimes violentos e de crimes contra o patrimônio, além de apresentar aumento nas apreensões de armas de fogo e prisões.
A pasta afirma que em Maranguape, cidade com a maior taxa de homicídios estimados em 2024 do País (87,2), a diminuição dos crimes violentos letais e intencionais (CVLIs) foi de 95,8% de janeiro a abril deste ano na comparação com o mesmo período do ano passado. Em municípios como Maracanaú e Caucaia, houve reduções de 90,4% e 39,1%, respectivamente, ainda segundo a secretaria.
“Considerando os CVLIs do quadrimestre em todo o Ceará deste ano, foram 346 crimes a menos, em comparação com o primeiro quadrimestre de 2025. Nos quatro primeiros meses de 2026, aconteceram 585 mortes violentas, contra 931 ocorrências no mesmo período do ano passado, uma redução de 37,2%”, acrescenta.
Já a Secretaria de Estado da Segurança Pública do Maranhão (SSP-MA) afirma que os dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, que levam em conta as estatísticas policiais, apontam redução das mortes violentas no Maranhão nos últimos anos. “Em 2023, foram registrados 2.104 casos. Em 2024, o número caiu para 2.050 ocorrências, redução de 2,5%. Já em 2025, o estado registrou 1.938 casos, representando nova redução de 5,5% em relação ao ano anterior”, afirma.
A pasta acrescenta que, mesmo com a metodologia adotada no Atlas, o Maranhão segue entre os Estados do Nordeste com menores índices de homicídios, abaixo de Estados como Bahia, Pernambuco, Alagoas e Ceará. “Os investimentos são crescentes e permanentes em estrutura, efetivo, inteligência e integração das forças de segurança”, afirma.
Como resultado disso, a Secretaria da Segurança Pública do Maranhão afirma que, nos últimos anos, mais de 13 mil integrantes de facções criminosas foram presos no Estado e mais de 11 mil armas de fogo foram retiradas das mãos do crime pelas forças de segurança estaduais.



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