Aumento dos radares meteorológicos vai refinar alertas de tempestades
Com a nova realidade imposta pelas mudanças climáticas globais – e tragédias recentes como a de Juiz de Fora indicam bem a dimensão do problema –, a corrida para melhorar os sistemas de alerta à população sobre grandes eventos extremos precisa ser mais rápida. E como a base de todo o sistema de previsão são os radares meteorológicos de maior precisão, sem eles, é impossível fazer uma omelete sem quebrar os ovos.
Há décadas se discute a melhoria do parque de radares meteorológicos tanto de São Paulo quanto do Brasil. Até o verão de 2024, por exemplo, toda a extensão do litoral paulista estava praticamente às cegas. Equipamentos instalados no Planalto, mesmo que perto da Serra do Mar, nem sempre enxergam o que está ocorrendo lá embaixo. O desastre de São Sebastião em 2023 passa por essa deficiência, apesar de outros problemas, como a questão da urbanização do litoral norte, também explicarem a tragédia.

O tenente Rodrigo Jordão, chefe de operações do CGE da Defesa Civil estadual, durante painel no Fórum de Infraestrutura e Políticas Públicas, do Crea-SP Foto: Tiago Queiroz/Estadão Blue Studio
O quadro tende a mudar nos próximos anos, como explicou o tenente Rodrigo Jordão, chefe de operações do Centro de Gerenciamento de Emergência da Defesa Civil do Estado de São Paulo, no Fórum de Infraestrutura e Políticas Públicas, organizado pelo Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado de São Paulo (Crea-SP). No caso do litoral paulista, por exemplo, além do radar em funcionamento na ponta sul de Ilhabela há quase dois anos – as instalações do equipamento adquirido pela Unesp com verba federal foram construídas pelo Estado e pela prefeitura –, estão previstos outros equipamentos, que vão enxergar desde o sul do Estado até a divisa com o Rio de Janeiro. “A previsão indica que teremos até mais um radar em Ilhabela, na ponta norte”, explicou Jordão. Para enxergar o centro paulista, por exemplo, outra máquina deve começar a operar, até o ano que vem, na região de Itapetininga.
Alertas sonoros
O Estado de São Paulo conta hoje com uma rede integrada de sete radares meteorológicos, reunidos no sistema do CePRAM (centro do governo paulista que integra dados de radares e sistemas meteorológicos para emitir alertas rápidos de eventos climáticos extremos) e operados por diferentes instituições públicas e acadêmicas. Essa rede combina equipamentos da SP Águas (antigo DAEE), da Universidade Estadual Paulista, da Universidade de São Paulo e da Universidade Estadual de Campinas. Os radares estão distribuídos em pontos estratégicos: Salesópolis, Bauru (com duas unidades operacionais), Presidente Prudente, São José dos Campos, Campinas, além do que está em Ilhabela. Essa configuração permite cobrir o interior, a região metropolitana de São Paulo, o Vale do Paraíba e o litoral, com sobreposição em áreas críticas. Mas nem sempre o refinamento dos dados é o ideal.
Do ponto de vista técnico, os radares operam monitorando a atmosfera em tempo real, identificando intensidade de chuva, formação de tempestades e deslocamento de sistemas meteorológicos, com alcance que pode chegar a centenas de quilômetros. Integrada ao CePRAM, a rede de equipamentos deixa de operar de forma isolada e passa a alimentar uma plataforma única, que cruza dados meteorológicos e hidrológicos para gerar alertas mais rápidos e precisos à Defesa Civil e à população.
É toda essa estrutura, segundo Jordão, que vem permitindo à Defesa Civil diminuir danos, ao emitir os alertas por SMS para as regiões que serão afetadas por um evento mais extremo, seja de chuva ou de estiagem, como dias com baixa umidade do ar durante o outono e o inverno.
Apenas entre os dias 19 e 26 de fevereiro, um acumulado de 648 mm de chuva despencou sobre a cidade de Peruíbe. Um total de 18 alertas via SMS, sendo cinco disparos também com som diretamente para os celulares da população no período da chuva, evitou mortes na cidade, segundo o balanço da Defesa Civil.
Apesar de a população muitas vezes interpretar os alertas via SMS ou sonoros como um erro, quando não chove, por exemplo, em determinada região, Jordão explica que é preciso entender como a prevenção dos desastres ligados aos eventos extremos é cada vez mais importante. E que também ficará cada vez mais precisa, à medida que os sistemas de monitoramento vão evoluindo. “Nós trabalhamos no eixo do desastre, para salvar vidas”, afirmou Jordão no evento organizado pelo Crea-SP.
No caso específico das instalações dos radares meteorológicos, o descompasso, por exemplo, com os Estados Unidos dá dimensão do desafio. A rede de radares meteorológicos do Brasil soma algo entre 20 e 30 equipamentos operacionais, distribuídos entre órgãos como o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, universidades e governos estaduais — caso de São Paulo, com sete unidades —, mas a cobertura ainda apresenta lacunas importantes, sobretudo em regiões remotas. Os EUA, entretanto, contam com cerca de 160 radares Doppler integrados ao sistema do National Weather Service, o que garante monitoramento praticamente contínuo e com alta redundância em todo o território. É uma diferença que traduz uma desigualdade significativa em capacidade de previsão e resposta a eventos extremos.



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