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Como enfrentar os custos do envelhecimento da população brasileira? Especialistas respondem

Como enfrentar os custos do envelhecimento da população brasileira? Especialistas respondem

Vecina propõe consórcios para unificar a gestão de serviços de saúde

Para Gonzalo Vecina, um dos principais entraves do sistema de saúde é a falta de coordenação entre as redes municipais e estaduais. Crédito: Bruno Nogueirão

A pressão do envelhecimento populacional sobre os custos da saúde exigirá da próxima gestão federal políticas mais robustas de prevenção e de assistência social, além de maior eficiência no uso dos recursos, o que deverá incluir descentralizar a gestão do SUS para dar mais autonomia a Estados e municípios e uma reforma no processo de incorporação de novas tecnologias na saúde pública e suplementar.

Essas foram as principais propostas apresentadas nesta quinta-feira, 11, no painel sobre saúde do segundo encontro do Brasil Adiante, série de eventos do Estadão que reúne alguns dos maiores especialistas do País para pensar uma agenda de soluções para os primeiros 24 meses do próximo governo. O documento que consolida as propostas será entregue em novembro ao vencedor das eleições presidenciais.

No eixo da saúde, que buscava soluções para o impacto do acelerado envelhecimento populacional na sustentabilidade dos sistemas público e suplementar, participaram Gonzalo Vecina, sanitarista e professor da Faculdade de Saúde Pública da USP; Arminio Fraga, economista, ex-presidente do Banco Central e cofundador do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), e Paulo Moll, CEO da Rede D’Or São Luiz.

No painel com os especialistas, entre as propostas que apareceram como medidas centrais para o próximo mandato estão:

  • Ampliar políticas de prevenção e promoção da saúde por meio do fortalecimento da atenção primária;
  • Integrar saúde e assistência social como forma de oferecer cuidado contínuo aos idosos;
  • Regionalizar a gestão do SUS, com maior autonomia dada a Estados e municípios, o que permitiria uso mais eficiente de recursos e melhor organização de filas;
  • Reformular o processo de avaliação de tecnologias para reduzir as desigualdades entre o SUS e a rede privada, e diminuir a judicialização;
  • Avançar na interoperabilidade dos dados dos pacientes de forma a oferecer um cuidado mais integral e evitar desperdícios dentro do SUS e da saúde suplementar.
 Como enfrentar os custos do envelhecimento da população brasileira? Especialistas respondem

Painel contou com a participação de especialistas do terceiro setor, academia e rede privada Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Para Fraga, o aumento da expectativa de vida deveria vir acompanhado de um reforço no orçamento da saúde já que, com a população mais envelhecida, cresce a prevalência de doenças crônicas, que exigem consultas e exames recorrentes, medicamentos de uso contínuo, reabilitação e tratamentos caros por períodos prolongados.

Ele defendeu que reformas que levem ao corte de gastos e à maior produtividade poderiam gerar um caixa mais gordo e, consequentemente, mais recursos para a área da Saúde.

“Se o País se arrumar e definir melhor as suas prioridades, a gente vai crescer muito mais. Onde tem espaço para se liberar recursos para o Brasil ter mais dinheiro na saúde? Na Previdência, na gestão do Estado e numa série de subsídios e desonerações que não fazem sentido, os tais gastos tributários”, disse.

Vecina disse considerar improvável o aumento de recursos para a saúde e, por isso, defendeu que ao menos o novo governo garanta que não haja cortes na área.

Diante do cenário, os especialistas destacaram que as medidas prioritárias do próximo presidente devem buscar melhorar a gestão dos recursos existentes e reduzir despesas com doenças que podem ser prevenidas. Veja abaixo o detalhamento das principais propostas apresentadas:

Ampliar políticas de prevenção e promoção da saúde

Se os recursos são finitos, uma das saídas para garantir a sustentabilidade do sistema de saúde sem diminuir o acesso da população à saúde é ampliar as políticas que possam evitar o adoecimento ou as complicações trazidas por doenças crônicas. Nesse sentido, defenderam os especialistas, é fundamental ampliar as políticas de prevenção e promoção da saúde. “Temos que voltar a pensar em saúde, e não em doença”, resumiu Vecina.

Ele defendeu que sejam adotadas políticas de promoção da saúde com foco nos sete pilares elencados pela Organização Mundial da Saúde (OMS): alimentação adequada, prática de exercícios físicos, boa higiene, prevenção de comportamentos de risco, uso racional de medicamentos, conhecimento em saúde e autoconhecimento sobre a própria condição.

Vecina destacou que, para ampliar as políticas de prevenção e promoção da saúde, é preciso fortalecer a atenção primária. “Temos que aumentar a nossa capacidade da atenção primária firmemente baseada na Estratégia Saúde da Família, com os agentes comunitários de saúde. Essa é a receita dos países que tiveram condições de enfrentar essa revolução demográfica, e é um avanço que temos que fazer tanto no SUS quanto na saúde suplementar”, defendeu.

Ele destacou a importância de engajar o cidadão nessa missão da prevenção e proteção da saúde. “Diferente da medicina da cura, quem ensina (promoção da saúde) somos nós, profissionais da saúde, mas quem executa é o cidadão. Então o profissional da saúde tem que criar um projeto terapêutico singular para cada paciente, para que haja cumplicidade nesse projeto entre os dois”, afirmou ele.

Integrar saúde com assistência social no cuidado aos idosos

A integração entre saúde e assistência social apareceu como outra proposta considerada relevante para lidar com o envelhecimento, especialmente diante do crescente número de brasileiros com mais de 60 anos que vivem sozinhos, têm perda de autonomia ou precisam de cuidado prolongado.

Fraga citou como inspiração uma experiência da Costa Rica, em que profissionais de saúde fazem visitas domiciliares periódicas para monitorar e auxiliar idosos. Iniciativa do tipo levaria assistência a pacientes que não contam com uma rede de apoio além de possibilitar o monitoramento de doenças crônicas que, se não controladas, podem causar complicações e internações que aumentam os custos dos sistemas de saúde.

Como o Estadão mostrou, outros países, como a Holanda, investem em programas em que enfermeiras fazem visitas domiciliares periódicas na casa de idosos sem cuidadores.

Vecina ressaltou ainda que a integração da saúde com a assistência social traria a possibilidade da criação de mais centros de convivência para idosos, nos quais eles poderiam passar o dia, participar de práticas coletivas e ter apoio para atividades diárias.

Esse tipo de estrutura já existe no Brasil, a exemplo dos Centros de Referência do Idoso, em São Paulo, mas os especialistas defendem uma ampliação dessa rede.

 Como enfrentar os custos do envelhecimento da população brasileira? Especialistas respondem

Idosos participam de atividade coletiva no Centro de Referência do Idoso Norte, em São Paulo, vinculado à Secretaria Estadual da Saúde. Foto: Felipe Rau/Estadão

Tais iniciativas são fundamentais para evitar que a responsabilidade do cuidado com o idoso recaia somente sobre as famílias, em especial sobre as mulheres, que muitas vezes precisam deixar o mercado de trabalho para cuidar de pais, cônjuges ou irmãos. “O Estado vai ter que cuidar dos velhinhos, vai ter que ter uma relação diferente com a velhice”, afirmou o sanitarista.

Regionalizar a gestão do SUS e dar mais autonomia a Estados e municípios

Outra medida vista como fundamental pelos especialistas é regionalizar a gestão do SUS. A ideia é superar a fragmentação entre municípios, Estados e União, criando regiões sanitárias com governança compartilhada, regras comuns de acesso e capacidade de organizar filas de consultas, exames e internações.

Para Vecina, o País precisa abandonar a lógica em que cada município tenta resolver sozinho problemas que exigem escala populacional e integração da rede.

Ele citou como exemplo a possibilidade de um grupo de municípios se reunir com o Estado e criar um consórcio com personalidade jurídica própria para gerir filas de procedimentos, compras de medicamentos e até contratação de pessoal. “Esse consórcio tem uma figura jurídica chamada autarquia. Essa autarquia é responsável por fazer a gestão da oferta de consultas e de exames e de internações daquela região sanitária”, afirmou.

A proposta também envolve mudar a forma de repasse federal. Em vez de fazer as transferências por procedimento, o governo federal poderia induzir modelos de governança regional com transferências per capita. A medida, segundo ele, daria mais liberdade aos gestores locais para usar o recurso com o que fizer mais sentido para a sua região e ajudaria a enfrentar desperdícios como o absenteísmo em consultas especializadas e a falta de comunicação entre sistemas de regulação diferentes que coexistem em uma mesma região, como sistemas de filas de uma secretaria municipal e uma estadual.

Segundo Vecina, essa falta de integração contribui para filas duplicadas e perda de consultas, já que o paciente pode estar simultaneamente em mais de uma fila e não comparecer quando é chamado em uma delas. “Quase 50% das consultas de especialidade na Grande São Paulo têm absenteísmo, ou seja, a pessoa falta. É jogar dinheiro fora”, disse Vecina.

Com maior liberdade para usar os recursos, os gestores locais poderiam, por exemplo, optar por contratar a capacidade ociosa de hospitais privados para atender pacientes do SUS, como sugeriu Paulo Moll, da Rede D’Or São Luiz. “A capacidade que o sistema público tem de comprar essa ociosidade é enorme, mas a gente usa de forma tímida, e eu acho que é fundamental, porque o paciente está na fila esperando”, disse.

Aprimorar o processo de avaliação de tecnologias em saúde

Uma quarta proposta que deveria ser prioritária para o novo governo é a reforma do processo de avaliação de tecnologias em saúde, que define quais tratamentos devem ser oferecidos no SUS ou custeados pelos planos de saúde.

Os especialistas defenderam criar critérios únicos para essa tomada de decisão, uma vez que hoje existem dois caminhos separados: a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias do SUS (Conitec), para o sistema público, e o rol de procedimentos da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), para os convênios médicos.

Moll destacou que a falta de critérios mais claros para a oferta de uma nova tecnologia ou medicamento leva a um elevado número de ações judiciais pedindo um tratamento antes mesmo de ele ser avaliado pelas instâncias competentes. “Quando a gente vê essas liminares, a gente vê muitas vezes cobertura para casos que não têm benefício para o paciente”, afirmou.

Vecina sugeriu a criação de uma agência única para avaliar a incorporação de novas tecnologias tanto no SUS quanto na saúde suplementar.

Interoperabilidade de dados como forma de reduzir o desperdício

Ampliar a integração dos dados clínicos dos pacientes e o compartilhamento das informações entre os diferentes sistemas e unidades de saúde foi outra proposta trazida por Moll para reduzir o desperdício e melhorar a assistência prestada.

Para o executivo da Rede D’Or, a falta de integração das informações do paciente é uma fonte importante de ineficiência. Ele citou como exemplo o caso de um paciente que faz uma tomografia poucas semanas antes de um atendimento e, por falta de acesso ao exame anterior, pode repetir o procedimento sem necessidade, aumentando custos e a exposição à radiação.

Segundo Moll, a organização dos dados e o uso de inteligência artificial podem ajudar médicos e demais profissionais a acessar, durante o atendimento, as informações relevantes do histórico do paciente. “Eu diria que organização dos dados, interoperabilidade, ainda que a execução disso não seja simples, elas são fundamentais olhando o futuro da saúde”, afirmou.

Evento faz parte do projeto Brasil Adiante; veja cronograma

Às vésperas das eleições de outubro, o Estadão promove a série de eventos Brasil Adiante, em busca de construir uma agenda integrada e executável de soluções para os primeiros 24 meses do próximo governo.

“Reunimos especialistas, gestores e lideranças para discutir como mudar o que estamos cansados de saber que precisa mudar”, disse Eurípedes Alcântara, diretor de Jornalismo do Grupo Estado.

A curadoria do projeto é do executivo Fábio Barbosa, que elaborou três eixos de trabalho para os encontros, contemplando temas como saúde, educação, segurança pública, instituições, entre outros.

No primeiro encontro, que aconteceu em maio, o debate teve como foco a eficiência do sistema de Justiça, o avanço dos custos do Judiciário e os efeitos da baixa previsibilidade judicial sobre investimentos, ambiente de negócios e atividade econômica (veja como foi).

Nesta quinta, o segundo encontro do Brasil Adiante também teve um painel de educação sobre como preparar melhor os brasileiros para um mercado de trabalho em transformação (leia mais aqui).

Até agosto, serão realizados outros três encontros que discutirão temas como Segurança Pública e Crime Organizado, Produtividade, Infraestrutura e Sustentabilidade.

Veja o cronograma:

  • 27 de maio: Encontro 1: Eixo I: Estabilidade Institucional e Fundamentos do Crescimento;
  • 11 de junho: Encontro 2: Eixo II: Capital Humano e Coesão Social (Educação e Saúde);
  • 23 de julho: Encontro 3: Eixo II: Capital Humano e Coesão Social (Segurança Pública e Crime Organizado);
  • 19 de agosto: Encontro 4: Eixo III: Produtividade, Infraestrutura e Sustentabilidade;
  • 27 de agosto: Encontro 5: Apresentação do documento consolidado, divulgação da agenda e fechamento do projeto;
  • Novembro: Entrega da agenda de soluções ao presidente eleito.

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