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Facção venezuelana Tren de Aragua usa Roraima de corredor da venda de armas para o Comando Vermelho

Facção venezuelana Tren de Aragua usa Roraima de corredor da venda de armas para o Comando Vermelho

PCC e Comando Vermelho: pesquisadora de Oxford explica papel do Brasil no tráfico global de drogas

Veja entrevista com Annette Idler, diretora do Programa de Segurança Global da Universidade Oxford. Crédito: Malu Mões/Estadão

A Polícia Civil de Roraima afirma que facção venezuelana Tren de Aragua tem usado o Estado amazônico como um corredor para o tráfico internacional de armas – como metralhadoras calibre .50 e lança-granadas. Um dos principais clientes é o Comando Vermelho (CV), com expressivo envio de produtos para Rio de Janeiro e Amazonas.

As investigações identificaram uma rede financeira ligada aos bandidos venezuelanos que movimentou cerca de R$ 6 bilhões em dois anos por meio de empresas, fintechs, criptomoedas e contas de terceiros (laranjas) utilizadas para ocultar recursos oriundos do crime no Brasil.

A Tren de Aragua atua em vários países da América do Sul – como Colômbia, Peru e Bolívia – e entrou na mira do governo Donald Trump, dos Estados Unidos, que executou neste mês Niño Guerrero, o chefe da facção.

As descobertas sobre a infiltração do Tren de Aragua no Brasil levaram à deflagração da Operação Rota do Norte, nesta terça-feira, 16, em seis Estados brasileiros. Ao todo, a polícia identificou 77 alvos entre pessoas físicas e jurídicas.

 Facção venezuelana Tren de Aragua usa Roraima de corredor da venda de armas para o Comando Vermelho

Tren de Aragua usa Roraima como corredor para tráfico internacional de armas, segundo a polícia Foto: Reprodução/TV Globo

Foram cumpridos 25 mandados de prisão preventiva e mais de30 mandados de busca e apreensão em Roraima, Amazonas, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Paraná.

Segundo Hugo Cardias, titular da Delegacia de Repressão às Organizações Criminosas (Draco), eles recebiam o dinheiro do tráfico de drogas e de armas e começavam a pulverizar esses recursos. “Chegava no primeiro laranja, que pulverizava para mais três, que pulverizavam para outros quatro, formando uma cadeia criminosa”, explicou a técnica conhecida como “smurfing”.

Na operação desta terça, foram apreendidos mais de US$ 50 mil em espécie, veículos de luxo avaliados em até R$ 1 milhão, além de ativos em criptomoedas. Os investigadores afirmam que os bens encontrados são incompatíveis com a renda declarada pelos suspeitos.

A polícia ainda mantém sob sigilo os nomes das empresas e das plataformas financeiras utilizadas no esquema, por isso a reportagem não conseguiu contato com a defesa.

‘Simbiose’ no crime

“Há um conjunto probatório robusto de que essas armas eram enviadas para o Amazonas e, em um segundo momento, para o Rio de Janeiro”, afirmou o delegado Wesley Costa. Roraima funciona principalmente como corredor logístico para esse armamento. “Essas armas não ficam aqui. Elas passam por Roraima”, afirmou.

Entre os armamentos estão fuzis, metralhadoras calibre 50 e lança-granadas. Os investigadores afirmam que a relação entre o Tren de Aragua e o CV deixou de ser apenas ocasional e passou a envolver interesses comerciais permanentes.

“Cada vez mais é uma associação em simbiose”, disse Costa. Segundo ele, a facção venezuelana fornece armas e rotas criminosas, enquanto organizações brasileiras oferecem capacidade financeira para aquisição desses produtos.

Pistas de aviões: logística do narcogarimpo

Conforme a delegada-geral, Simone Arruda, a investigação nasceu como desdobramento da Operação Kapok, realizada anteriormente para combater o braço armado da organização criminosa responsável pelo narcogarimpo na Terra Indígena Yanomami.

“Membros de organizações criminosas transnacionais, mesmo que não estejam fixadas no Brasil, tendem a vir para cá porque o minério ilegal é um nicho financeiro muito alto”, afirmou Simone.

“Roraima tem alto índice de pistas não regulamentadas em razão dessa extração clandestina, e o crime transnacional aproveita esse cenário para atuar de maneira altamente inteligente, unindo o tráfico ao garimpo”, acrescentou.

 Facção venezuelana Tren de Aragua usa Roraima de corredor da venda de armas para o Comando Vermelho

Operação do governo Trump assassinou Niño Guerrero, líder do Tren de Aragua. Foto: Reprodução/Truth Social/@realDonaldTrump

Questionado sobre a presença da facção no Estado, Hugo Cardias afirmou que o Tren de Aragua já atua na maioria dos municípios de Roraima, embora a polícia ainda não tenha levantamento consolidado sobre a extensão exata dessa presença.

Segundo ele, a organização costuma iniciar sua atuação em áreas socialmente vulneráveis por meio da exploração sexual e do tráfico de drogas, avançando posteriormente para atividades mais lucrativas.

“Ele começa atuando com exploração sexual. Depois evolui para tráfico de drogas, tráfico de armas e outras atividades”, afirmou.

O delegado citou o município de Alto Alegre, onde fica localizada a Terra Yanomami, como um dos locais onde foram identificadas atividades ligadas ao tráfico de drogas e à exploração sexual.

Já em Boa Vista, as investigações apontam atuação em crimes relacionados ao tráfico de armas, homicídios e lavagem de dinheiro.

Esquartejamentos levantaram suspeitas

Segundo a delegada-geral, a presença da facção no Estado começou a ser monitorada entre 2018 e 2019, inicialmente em Pacaraima, município fronteiriço, e depois em bairros da capital que concentravam grande fluxo migratório.

Segundo ela, as primeiras evidências surgiram durante investigações sobre crimes patrimoniais praticados por migrantes venezuelanos e foram aprofundadas nos anos seguintes.

A consolidação das suspeitas ocorreu durante investigações de homicídios e esquartejamentos registrados em Boa Vista, especialmente no bairro 13 de Setembro. “Nesses inquéritos de homicídio foi demonstrada claramente a existência de membros do Tren de Aragua e do Tren del Llano atuando em disputas de território”, afirmou.

A delegada também destacou que organizações criminosas transnacionais costumam estabelecer alianças operacionais com grupos já instalados nos territórios onde chegam. Segundo ela, o fenômeno, conhecido por especialistas como “hibridização”, foi observado em outros países da América Latina e apresenta características semelhantes em Roraima.

“Eles têm um produto a oferecer e encontram quem tenha dinheiro para pagar. Cada vez mais as facções criminosas atuam como empresas”, disse. Os criminosos também estão entre os suspeitos de atuar como coiotes de cubanos, como mais uma fonte de movimentar recursos para o crime.

Neste ano, autoridades têm identificado um aumento das abordagens de cubanos em situação irregular em Roraima, que entram no Brasil por meio da fronteira com a Guiana.

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