Favela do Moinho chega ao fim no centro de SP
A Favela do Moinho, por décadas um dos retratos mais visíveis das contradições urbanas de São Paulo, entra agora em sua fase final. No coração da região central, entre trilhos e antigos galpões industriais, o que já foi uma comunidade vibrante dá lugar a um cenário de esvaziamento progressivo. Restam cerca de 40 famílias.
A reta final da desmontagem encerra um processo longo, marcado por disputas judiciais, protestos e negociações delicadas. Mas também revela uma etapa menos visível — e decisiva: o trabalho técnico que tem permitido que a operação avance sem ampliar riscos em uma área já fragilizada por anos de ocupação precária. “O nosso cadastramento mostrou 931 edificações no local. A precariedade de algumas delas nos assustou muito. Agora, estamos na reta final”, afirmou Ticiane D’Alóia, diretora de Atendimento Habitacional da Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação do Estado de São Paulo (SDUH), durante o Fórum de Infraestrutura e Políticas Públicas, organizado pelo Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado de São Paulo.
Engenharia no limite: decidir o que fica e o que cai
À medida que a favela se desfaz, casa por casa, entra em cena um trabalho minucioso conduzido por engenheiros ligados ao Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de São Paulo (Crea-SP). São eles os responsáveis por avaliar, por meio de laudos técnicos, quais estruturas ainda apresentam condições mínimas de estabilidade e quais precisam ser demolidas imediatamente.
Não se trata apenas de autorizar derrubadas. Em um ambiente em que construções foram erguidas sem padrão técnico ao longo de décadas, muitas vezes sobrepostas ou apoiadas umas nas outras, em vielas estreitas e com banheiros compartilhados, cada decisão exige cautela. Uma parede retirada de forma inadequada pode comprometer toda uma fileira de imóveis ainda ocupados.
O cadastramento da CDHU identificou 758 residências ou imóveis de uso misto, 38 comércios e 7 edificações ligadas a entidades religiosas ou comunitárias. A renda média mensal das famílias, segundo o levantamento, era de cinco salários mínimos, e 15% das moradias estavam alugadas. Os laudos do Crea, portanto, funcionam como um mapa de risco em tempo real. Orientam equipes em campo, definem prioridades e ajudam a evitar acidentes em uma fase especialmente sensível, quando convivem, lado a lado, casas vazias, estruturas condenadas e moradias ainda habitadas.

Ticiane D’Alóia, Diretora de Atendimento Habitacional – Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação do Estado de São Paulo (SDUH) Foto: Divulgação/Crea
Saída lenta e cheia de tensões
O número reduzido de famílias remanescentes contrasta com o passado recente. Em seu auge, o Moinho abrigou milhares de pessoas, consolidando-se como a última favela de grande porte no centro da capital paulista. A proximidade com empregos, transporte e serviços sempre foi um diferencial — e também um dos principais pontos de conflito no processo de remoção.
A desocupação, acelerada ao longo de 2025, avançou por meio de acordos que envolveram subsídios habitacionais e auxílio-aluguel — que chegaram a R$ 1,2 mil após a participação do governo federal. Ainda assim, o caminho até aqui foi marcado por resistência. Moradores relataram incertezas, dificuldades na transição e o risco de perda de vínculos sociais e econômicos construídos ao longo de décadas.
A remoção foi considerada a única alternativa pelo poder público, uma vez que a área é classificada como não regularizável. Com isso, diferentes opções de saída — incluindo crédito habitacional, que permite às famílias escolher para onde ir — ajudaram a acelerar o processo desde março do ano passado. Em alguns momentos, as negociações também envolveram lideranças locais, refletindo a complexidade social do território.
O que fica depois
Com a desmontagem praticamente concluída, o terreno do Moinho entra no radar de projetos de requalificação urbana, incluindo a criação de um parque. A proposta é transformar uma área marcada por vulnerabilidades em um novo espaço público.
O fim da favela, no entanto, não encerra o debate que ela simboliza. Pelo contrário, o explicita: como conciliar a renovação de áreas centrais com o direito à moradia? Como evitar que soluções urbanísticas desloquem, em vez de integrar, populações historicamente vulneráveis?
Enquanto as últimas estruturas são avaliadas e as demolições seguem o ritmo dos laudos técnicos, o Moinho deixa de existir como território físico. Mas permanece como um dos casos mais emblemáticos de São Paulo — um ponto de tensão entre cidade formal e informal, entre planejamento e realidade, entre o que se constrói e o que se desfaz.



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