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Ficção força questionamentos sobre a própria humanidade a partir de robôs

Ficção força questionamentos sobre a própria humanidade a partir de robôs

 Ficção força questionamentos sobre a própria humanidade a partir de robôs

Zoe Graystone, personagem da série “Caprica” (2010), cuja “essência” dá “vida” ao robô U-87, atrás dela – Foto: reprodução

A corrida (sem trocadilhos) pelos robôs humanoides pode nos trazer o benefício inesperado de questionar aspectos de nossa própria humanidade. Na segunda, debati neste espaço o estágio atual do desenvolvimento dessas máquinas, que provocam fascínio, apesar de ainda estarem muito aquém do mínimo para serem verdadeiramente úteis. Ainda assim, elas reúnem inovação tecnológica com um desejo inconsciente de nos relacionarmos com um robô que se pareça conosco.

Isso se deve, em parte, ao imaginário coletivo plantado em nossas mentes pela ficção científica. Afinal, o que pode haver de nós em um androide com braços e pernas?

Desde que Fritz Lang apresentou ao mundo o robô de seu filme “Metropolis” (1927), nossa relação com as máquinas nunca mais foi a mesma. Ele representa um marco no cinema porque, há quase um século, uma máquina demonstrou que o corpo humano é uma linguagem poderosa.

Ela era uma duplicata mecânica da carismática líder trabalhadora Maria (Brigitte Helm), e não foi criada para melhorar algo, e sim como um instrumento de controle social. A sua função era confundir e desestabilizar, inflamando emoções e conduzindo a massa ao caos. E o mais inquietante não estava na tecnologia em si, mas no uso simbólico da forma humana. Por isso, aquela “maschinenmensch” não precisava ser eficiente, e sim convincente.

Isso me faz pensar que os robôs humanoides contemporâneos operam melhor como demonstrações do que como soluções práticas. Sua função é materializar uma ideia do que pode vir a ser. Por isso, sua aparência de humanidade pode valer mais do que a própria funcionalidade.

Qualquer robô “feioso”, com rodas, esteiras e braços dedicados provavelmente será mais eficiente em suas tarefas do que um humanoide, pelo menos nos próximos dez anos. Mas insistimos nesses últimos porque o corpo humano é uma interface universal, que comunica intenções e gera empatia.

A adoção da forma e até de emoções humanas dos robôs continuou evoluindo na ficção, desde a insegurança de C-3PO, de “Star Wars”, até os replicantes de “Blade Runner”, que pediam por “mais vida” ao seu criador. Mas talvez o auge disso sejam os cylons do reboot da série “Battlestar Galactica” (2004 a 2009) e da derivada “Caprica” (2010).

A primeira retrata o velho drama de máquinas criadas para fazer tarefas que os humanos não querem e acabam se revoltando contra seus criadores. Mas o roteiro se sofistica a um patamar inédito, pois, para atingir nosso extermínio, os cylons criam corpos biológicos, indistinguíveis dos humanos. Com o tempo, passam a querer entender seus criadores, desenvolvendo sentimentos e até se tornando religiosos.

Mas seu maior desejo é ironicamente sentir amor. Enquanto isso, os humanos terceirizavam suas próprias responsabilidades emocionais.

Em “Caprica”, cujos eventos se passam 58 anos antes, vemos o surgimento do primeiro cylon quando a versão digitalizada da consciência da adolescente Zoe Graystone é carregada no robô U-87 (vistos na foto). Em um dramático evento de inteligência artificial, a menina chega a acreditar que está viva no corpo mecânico, o que culminará na revolta das máquinas anos depois.

De volta à nossa realidade, pesquisamos hoje a “inteligência artificial sensitiva”, para termos máquinas que “entendam” e “sintam” o mundo à sua volta, tornando a interação mais confortável para nós. O paralelo com os cylons é inevitável, pois os robôs poderão ocupar um espaço simbólico até então exclusivamente humano.

Estamos criando máquinas para que se pareçam conosco, algumas com rostos humanizados que simulam emoções. Não proponho que elas se tornarão cylons, mas ao observarmos máquinas tentando descobrir o que é ser humano, somos forçados a questionar se nós mesmos sabemos a resposta.

Há aplicações claras para robôs humanoides, como atuar em ambientes criados para humanos, mas que são insalubres ou perigosos. Mas devemos evitar que o deslumbramento com suas possibilidades faça com que simplesmente nos substituam.

Na última cena de “Galactica”, os “espíritos” (note as aspas) dos personagens Caprica Seis (uma cylon) e Gaius Baltar (um humano) aparecem na atualidade, 150 mil anos depois dos acontecimentos da série. Eles comentam o surgimento dos robôs humanoides e questionam se a história se repetirá. Esse diálogo resume a tese central da série, de que a tecnologia não determina o destino, mas o comportamento humano sim.

Portanto, nesse momento em que desejamos robôs cada vez mais “humanos”, deveríamos avaliar o que faremos com eles, caso se tornem máquinas verdadeiramente conscientes.

Afinal, elas poderão reproduzir eficientemente tudo aquilo que ainda não resolvemos em nós mesmos. E temos muito trabalho a ser feito.


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