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Não envelhecerás: os labirintos de Paulo Rosenbaum Por Flávio Goldberg

Não envelhecerás: os labirintos de Paulo Rosenbaum Por Flávio Goldberg

Não envelhecerás: os labirintos de Paulo Rosenbaum

Por Flávio Goldberg*

Há escritores que contam histórias. Há escritores que formulam teses. Paulo Rosenbaum parece interessado em algo mais difícil: transformar perguntas em literatura.

Confesso que sempre tive uma inclinação por autores que habitam a fronteira entre a ficção e a reflexão. Talvez por deformação profissional. O advogado convive diariamente com versões conflitantes da realidade. O escritor, por sua vez, sabe que nem sempre a verdade está nos fatos, mas na forma como os interpretamos. Em Paulo Rosenbaum, essas duas dimensões parecem caminhar juntas.

Ao ler “Não envelhecerás e outras histórias”, tive a impressão de reencontrar uma tradição literária que raramente encontra espaço em tempos de leitura apressada. Refiro-me à literatura que não tem receio de dialogar com a filosofia, com a memória, com a história e até mesmo com a metafísica.

Paulo Rosenbaum, um médico que usa a palavra literária como bisturi dissecando as mais profundas emoções humanas.

Também me parece representar uma linhagem intelectual que ajudou a enriquecer a cultura brasileira ao longo do último século. Filho de uma tradição marcada pelas raízes judaicas do Leste Europeu, Rosenbaum carrega para sua literatura algo que transcende a simples narrativa: a valorização da memória, da pergunta, da inquietação e da permanente investigação da condição humana. Sua obra dialoga, de forma muito brasileira, com esse vasto patrimônio cultural construído por gerações de imigrantes que trouxeram consigo não apenas costumes, mas uma particular forma de olhar o mundo.

Não para exibir erudição, mas para ampliar o campo de visão do leitor.

Vivemos cercados por informações. Sabemos cada vez mais sobre quase tudo. Paradoxalmente, refletimos cada vez menos. A velocidade passou a ser confundida com inteligência. A opinião instantânea tomou o lugar da dúvida. Contra essa corrente, Paulo Rosenbaum escreve como quem desacelera o relógio.

Seus textos não pedem urgência. Pedem atenção.

Ao longo do livro, o autor constrói narrativas nas quais a memória deixa de ser simples recordação e passa a funcionar como território. Um território instável, sujeito a revisões, esquecimentos e descobertas inesperadas. O tempo, por sua vez, não surge apenas como sucessão de dias, mas como personagem silencioso que molda destinos, preserva mistérios e impõe limites à condição humana.

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Há ecos literários reconhecíveis. Em determinados momentos, o leitor recorda Borges. Em outros, percebe afinidades com autores que fizeram da inquietação intelectual matéria-prima da ficção. Ainda assim, seria injusto reduzir Rosenbaum às suas influências. Sua escrita possui identidade própria, construída a partir de um raro equilíbrio entre imaginação e pensamento.

O que mais me chamou a atenção foi a recusa em oferecer respostas fáceis. Num mercado editorial frequentemente dominado por certezas instantâneas, Paulo Rosenbaum aposta no caminho oposto. Seus personagens procuram compreender o mundo, mas o mundo resiste. Talvez porque algumas perguntas existam precisamente para permanecer sem resposta.

Essa característica produz um efeito curioso. Terminamos a leitura carregando menos conclusões do que quando a iniciamos. E isso, longe de representar uma falha, constitui uma de suas maiores virtudes. A boa literatura nem sempre esclarece. Às vezes, ela apenas ilumina melhor os mistérios.

O próprio título do livro parece dialogar com essa percepção. “Não envelhecerás.” A frase soa inicialmente como desafio biológico. Aos poucos, porém, adquire outro significado. Não se trata apenas dos corpos que envelhecem, mas das ideias, das lembranças, dos afetos e das narrativas que resistem à erosão do tempo.

Talvez seja essa a questão central da obra: o que permanece quando tudo o mais desaparece?

Ao fechar o livro, fiquei com a sensação de que Paulo Rosenbaum pertence a uma categoria cada vez mais rara de escritores. Aqueles que compreendem que a literatura não existe apenas para entreter ou narrar acontecimentos. Ela existe, sobretudo, para ampliar a consciência humana.

Em tempos de superficialidade crescente, essa já seria uma qualidade notável.

Em tempos de esquecimento, talvez seja uma necessidade.

*Flavio Goldberg, advogado e mestre em Direito.

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