Os jogadores de futebol que ainda moram com os pais – 12/05/2026 – Esporte
Julian Hall e Adri Mehmeti são adolescentes de Nova York vivendo um sonho: não têm idade para beber, mas precisam se virar contra Messi.
Como qualquer mãe paciente, Agnes Zakrzewska passou boa parte do mês passado esperando em um estacionamento perto de um campo em Nova Jersey. Quando seu filho adolescente, Julian, terminou o treino, Zakrzewska o levou para um evento importante —seu primeiro teste prático para tirar a carteira de motorista.
Ele passou e eles voltaram para o apartamento de dois quartos no Upper West Side de Manhattan.
Três dias depois, em 11 de abril, Julian Zakrzewski Hall era titular no ataque do New York Red Bulls em um estádio hostil em Miami, diante de 26 mil torcedores. Ele havia completado 18 anos menos de três semanas antes e agora jogava contra Lionel Messi, o jogador de futebol mais famoso do mundo. Ele até superou Messi, o astro argentino, dando assistências para dois gols, incluindo um passe genial para seu amigo e companheiro de equipe Adri Mehmeti —outro adolescente talentoso da cidade de Nova York.
“Para ser sincero, eu estava mais nervoso tirando minha carteira de motorista”, disse Hall após a partida. “É estranho ter um desconhecido sentado ali observando tudo o que você faz.”
Engraçado, porque ser observado por desconhecidos faz parte da descrição do trabalho de Hall.
Enquanto a maioria de seus colegas ainda está no ensino médio, Hall e Mehmeti jogam profissionalmente pelo Red Bulls na MLS (Major League Soccer). Eles fazem parte da mais recente geração de jovens talentos do clube, tendo ingressado na academia de futebol da equipe desde o nono ano do ensino fundamental e agora brilhando no time principal, mesmo ainda morando com seus pais e irmãos.
Com apenas 18 anos, Hall é o artilheiro do Red Bulls, com seis gols, e é o jogador mais jovem da história da MLS a marcar cinco gols em seus primeiros seis jogos. Mehmeti, de 17 anos, tem um gol e três assistências em sua impressionante temporada de estreia.
“Eles não são os primeiros a fazer isso, mas é uma novidade ter jovens jogadores da casa atuando por tantos minutos tão cedo em suas carreiras”, disse Julian de Guzman, diretor esportivo do Red Bulls.
O Red Bulls, que manda seus jogos em Harrison, Nova Jersey, se orgulha de sua história de desenvolvimento de talentos locais.
Hall e Mehmeti, desde o ensino fundamental, estavam entre um seleto grupo recrutado para as academias de futebol locais, primeiro em programas extracurriculares e depois no programa integral do Red Bulls, onde o futebol é combinado com os estudos. Agora, como profissionais em tempo integral, eles estudam online e se dedicam ao trabalho.
“É claro que me preocupo com a educação dele”, disse Suada Mehmeti, mãe de Adri, em sua casa em Staten Island. “É muito importante, mas é algo a que ele sempre pode voltar, talvez para fazer uma faculdade.”
Mehmeti, de pé na cozinha enquanto sua irmã mais nova, Ava, estava sentada à mesa, sorriu e deu de ombros timidamente. Ele está fazendo jogadas de alto nível entre os profissionais e não tem planos de frequentar a faculdade.
Hall e Mehmeti são filhos de imigrantes de ex-nações comunistas europeias, mas seus caminhos até o Red Bulls foram diferentes.
A mãe de Hall imigrou da Polônia para Nova Jersey pouco antes do início do nono ano e, em dois dias, já estava trabalhando como faxineira com a avó. Ela frequentou a Universidade Rutgers e depois se estabeleceu em Nova York. Julian viveu seus primeiros anos no Harlem antes de se mudarem para o apartamento atual no Upper West Side, onde Julian ainda dorme em uma cama dobrável que fica recolhida durante o dia.
Quando criança, em um pequeno apartamento em Manhattan, ele passava incontáveis horas driblando uma almofada de futebol de pelúcia pela sala de estar.
Mesmo agora, com Hall ganhando um salário base de cerca de US$ 125 mil (R$ 612 mil), pouca coisa mudou. Ele dorme na mesma cama dobrável e brinca com a bola de futebol de pelúcia com seu irmão de 8 anos, Leon.
Zakrzewski (pronuncia-se zak-CHEF-skee) é o nome do meio de Hall, mas ele o escolheu para as costas de sua camisa quando se tornou profissional —embora compartilhe o sobrenome de seu pai americano, Lorenzo Hall, eles não moram juntos. Julian não se importa se os comentaristas o chamarem de Hall, mas ele queria Zakrzewski em sua camisa para expressar seu amor por sua mãe e sua herança polonesa.
O sonho de um pai
Os Mehmetis moram em uma casa isolada em uma rua tranquila em Staten Island. São eles: Adri; Ava; sua mãe, Suada; e seu pai, Ritvan, que jogou futebol semiprofissional na Grécia. Os pais são donos de uma transportadora, e Ritvan, ou Vani, como é conhecido, tenta agendar as entregas interestaduais para coincidir com os jogos do filho fora de casa. Ele já dirigiu até o Texas para assistir ao filho jogar e viu seu primeiro gol em Miami.
“Eu estava chorando nas arquibancadas, ‘Esse é o meu garoto'”, disse ele.
Os pais de Mehmeti imigraram separadamente da Albânia para Nova York, onde se conheceram em uma festa e logo se apaixonaram. Mas antes de se casarem, Vani disse a Suada que pretendia criar um jogador de futebol profissional. Não havia negociação.
“Esse sempre foi o sonho dele”, disse ela.
Os pais de Mehmeti sabem que, apesar de todas as viagens constantes que fazem pelo filho, isso teria sido muito mais complicado no passado. Mesmo há uma geração, um jovem americano promissor poderia ter que deixar o país para se tornar profissional.
De Guzman, 45, diretor executivo de futebol de Nova York, deixou sua casa no Canadá aos 16 anos para se juntar à academia do Olympique de Marselha, na França. Seu único contato com os pais era por meio de um cartão telefônico com tempo limitado e ligações de 20 minutos, uma vez por semana.
“Deixei minha família, meus amigos, tudo”, lembrou ele. “A diferença para eles é que agora podem voltar para casa e passar um tempo com suas famílias, o que me deixa muito feliz.”
Ele disse que o Red Bulls segue práticas padronizadas para menores de idade. Nada de cerveja no vestiário, e o clube emprega um responsável pelos cuidados com os jogadores, que acompanha todos os atletas em viagens, com atenção especial aos adolescentes. Eles ficam em quartos individuais ou dividem o quarto com outro adolescente. Em vez de irem a bares, Hall e Mehmeti disseram que os jogadores costumam ficar no hotel.
O objetivo de ambos os jogadores, claro, é jogar na Europa, e isso pode acontecer em breve.
Os Mehmeti têm um apartamento na Albânia e podem se juntar ao filho se ele for para o exterior.
Zakrzewska sabe que a perspectiva de ir para a Europa também paira sobre seu filho. Até lá, ela quer que Julian, o artilheiro do Red Bulls que acabou de tirar a carteira de motorista, continue dormindo na cama dobrável, vá trabalhar de carro e brinque com o irmãozinho à tarde.
“Sei que ele vai embora em breve”, disse ela. “Quero passar o máximo de tempo possível com ele agora.”



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