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Perfis falsos no WhatsApp e pedidos de Pix: golpistas usam nomes de arcebispos para enganar fiéis

Perfis falsos no WhatsApp e pedidos de Pix: golpistas usam nomes de arcebispos para enganar fiéis

GOLPE DO PHISHING: já ouviu falar? Esse golpe pode te dar um enorme prejuízo!

Criminosos enviam mensagens falsas se passando por empresas, bancos ou órgãos oficiais para te enganar e roubar seus dados. Crédito: 📹: Marco Dias 🎨: Marcos Muller

Se a eficiência de qualquer golpe depende da boa-fé da vítima, agora parece que criminosos estão mirando justamente na fé popular para tentar tirar vantagem. Em ações parecidas — com repercussão até no Vaticano —, golpistas têm usado perfis falsos de figuras conhecidas do Catolicismo para enganar fiéis.

Entre os mais ilustres religiosos que vêm tendo seus nomes e fotografias usados para o golpe do Pix estão os arcebispos:

  • Paulo Jackson Nóbrega de Sousa, que comanda a Arquidiocese de Olinda e Recife desde 2003;
  • Gregório Ben Lâmed Paixão, à frente da Arquidiocese de Fortaleza também desde 2023;
  • Carlos Alberto Breis Pereira, que há dois anos é o responsável pela Arquidiocese de Maceió.
 Perfis falsos no WhatsApp e pedidos de Pix: golpistas usam nomes de arcebispos para enganar fiéis

Perfis falsos no WhatsApp com fotos de dom Gregório Paixão (Arquidiocese de Fortaleza) e dom Carlos Alberto Breis (Arquidiocese de Maceió). Foto: Reprodução

O padrão do golpe é idêntico. Os criminosos usam um perfil falso e, fazendo-se passar pelo bispo, entram em contato com moradores da região por meio do WhatsApp. No texto, pedem doação de dinheiro via Pix para ajudar com supostas despesas urgentes. O pretexto varia: às vezes, é a necessidade de custear o aluguel de um espaço utilizado para atividades pastorais, em outras, para bancar frete de ônibus para algum evento, ou mesmo para doação de alimentos para alguma campanha social.

Os casos repercutiram no meio católico. As três arquidioceses emitiram notas públicas alertando sobre as tentativas de golpe — e conscientizando os fiéis sobre a importância de terem um pé atrás nesse tipo de abordagem.

A Arquidiocese de Maceió considerou o tema “urgente” e disse que o estratagema era obra de “indivíduos agindo de má-fé” e que nem Breis Pereira nem a Cúria solicitam transferências ou doações via aplicativos de mensagem. Em comunicação semelhante, a Arquidiocese de Fortaleza qualificou o esquema de “fraude”.

Já a de Olinda e Recife pediu que “abordagens com esse teor sejam desconsideradas”, enfatizando que não autoriza “quaisquer pedidos dessa natureza realizados por contatos informais ou pessoais”.

Até o Vaticano acabou repercutindo a notícia: o Vatican News, portal oficial de informações da Santa Sé, publicou a respeito. As três arquidioceses registraram boletim de ocorrência na polícia.

 Perfis falsos no WhatsApp e pedidos de Pix: golpistas usam nomes de arcebispos para enganar fiéis

Da esquerda para a direita, dom Paulo Jackson, dom Gregório Paixão e dom Carlos Alberto Breis. Foto: Divulgação

Crime ‘reciclado’

Esse tipo de script não é novidade entre golpistas. Em 2020, o frade Manoel Delson Pedreira da Cruz, arcebispo da Paraíba, teve seu nome e sua imagem usados por criminosos que pediam dinheiro alegando que era para auxiliar financeiramente jovens candidatos ao seminário religioso. Mais recentemente, os prelados José Carlos de Souza Campos, arcebispo de Montes Claros, e Luiz Fernando Lisboa, da Diocese de Cachoeiro de Itapemirim, foram associados ao envio de boletos falsos a fiéis — em ambos os casos, suas fotos foram utilizadas por criminosos.

A Igreja tem orientado os católicos a tomarem cuidado com esse tipo de abordagem. “Não realize transferências. Caso receba qualquer mensagem deste número ou de perfis semelhantes solicitando dinheiro, ignore e não responda”, pontua a nota da Arquidiocese de Maceió. “Bloqueie e denuncie: utilize a ferramenta de denúncia do próprio WhatsApp para reportar o perfil falso.”

“Verifique as fontes. Toda e qualquer campanha de arrecadação oficial da Arquidiocese é divulgada apenas pelos canais de comunicação institucionais e em documentos timbrados”, alerta ainda. “Pedimos a todos que compartilhem este alerta para evitar que mais pessoas sejam vítimas deste golpe. As medidas legais cabíveis junto às autoridades policiais já estão sendo tomadas.”

Fique atento para não cair nos golpes

Se alguém cai em um golpe desses, nem sempre o dinheiro está perdido. De acordo com a advogada Patricia Peck, especialista em Direito digital e membro do Comitê Nacional de Cibersegurança e da Comissão de Proteção de Dados do Conselho Nacional de Justiça, “depende do caso concreto”.

CONTiNUA APÓS PUBLICIDADE

“Quando a pessoa faz um Pix por engano ou induzida por golpe, o primeiro caminho é acionar o Mecanismo Especial de Devolução, criado pelo Banco Central para situações de fraude”, explica. Esse sistema permite o bloqueio cautelar dos valores na conta recebedora e, havendo confirmação de fraude e saldo disponível, a devolução total ou parcial do dinheiro.

Na prática, a vítima precisa comunicar “imediatamente o banco” pelo aplicativo ou pelo atendimento. Em seguida, a instituição avalia se há indícios de golpe — em caso positivo, aciona o mecanismo. “Confirmada a fraude, o dinheiro é devolvido se ainda houver saldo disponível na conta do fraudador”, diz a especialista.

O problema é que, se o dinheiro já tiver sido transferido, sacado ou pulverizado rapidamente, “o banco não é obrigado a devolver automaticamente valores que não estão mais disponíveis”, enfatiza a advogada. Aí o caminho para reaver os valores tem de ser por meio de investigação policial e eventual ação judicial contra o fraudador. “Em situações específicas, cabe discussão sobre eventual responsabilidade do banco se houver evidência clara de falha na segurança, no monitoramento ou na prevenção de transações suspeitas.”

“Quando a própria vítima realiza voluntariamente a transferência, como ocorre no golpe via WhatsApp em que alguém se passa por conhecido, o Judiciário tem afastado a responsabilidade do banco, por entender que não houve falha na prestação do serviço, mas que o dano decorreu da falta de cautela do próprio usuário”, lembra a advogada Maria Eduarda Nunes, especialista em Direito digital. “O fato de o golpe ser considerado amplamente divulgado reforça alguns entendimentos dos tribunais de que cabia ao consumidor se precaver.”

Ela orienta que a vítima registre boletim de ocorrência imediatamente após perceber que se trata de golpe.

Ex-presidente da Comissão de Direito Bancário da seção de Brasília da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), o advogado Benito Conde, especialista em Direito bancário, lembra que o Pix é, “a princípio, irrevogável”. E isto afasta “em tese”, a obrigação de devolução pelo banco.

“Cumpre esclarecer que, não havendo falha comprovada na segurança no âmbito das operações bancárias, não há de se falar em responsabilidade da instituição financeira em ressarcir o usuário, pois a transferência foi feita por ele próprio, com inclusão dos valores e senha para concretizar a operação”, esclarece Conde.

Criminosos costumam seguir um padrão

Ao analisar esses casos das dioceses, Patrícia Peck nota a evidência de um padrão clássico do golpe. Ou seja, a potencial vítima pode ficar esperta quando uma mensagem mescla os seguintes elementos: uso de uma identidade visual muito verossimilhante, um pedido urgente, e a ênfase no Pix como meio de pagamento, em geral com dados de pessoa física.

Para evitar cair em golpe, o ideal é sempre verificar os dados oficiais da paróquia ou da diocese, checando inclusive o CNPJ vinculado à chave Pix. “Deve-se desconfiar de pedidos financeiros por aplicativos de mensagem, em caráter de urgência”, aponta Patrícia Peck.

“Também é necessário verificar o canal, não apenas o nome ou a foto. Fotos, nomes e cargos não garantem autenticidade. Golpistas utilizam imagens reais e números comuns”, comenta ela. O ideal, frisa a advogada, é checar as informações nos sites oficiais, nas redes institucionais verificadas ou diretamente na secretaria da instituição.

“Em geral, os golpistas usam contas de ‘laranjas’, e o nome não corresponde à pessoa conhecida”, lembra a advogada Maria Eduarda Nunes.

“Desconfie de pedidos repentinos de dinheiro, ainda mais acompanhados de alegações de urgência ou troca de número”, recomenda ela. “Solicite uma confirmação por voz ou vídeo, peça para a pessoa ligar ou faça uma videochamada, nesses casos, golpistas dificilmente aceitarão.”

A especialista também lembra que figuras públicas, como autoridades religiosas ou celebridades, dificilmente entram em contato diretamente solicitando transferências pessoais.

“O cuidado mais importante e relevante é não confiar exclusivamente no canal pelo qual o pedido foi feito”, adverte Conde. “Os usuários devem sempre confirmar a solicitação por outro meio de comunicação previamente conhecido como, por exemplo, telefone institucional, site oficial, etc. Outra recomendação é evitar a interação com o número que fez o pedido, pois os golpistas se valem da persuasão para conseguir informações importantes para a concretização da fraude.”

A advogada Patrícia Peck ainda afirma ser preciso redobrar o cuidado com mensagens “de urgência emocional”. “Pedidos com frases como ‘é urgente’, ‘precisamos agora’, ‘última chance’, são um gatilho clássico de engenharia social, feito para reduzir o senso crítico”, contextualiza.

“A mensagem principal é: nunca tenha receio de confirmar. Confirmar não é desconfiança indevida, é proteção. Se o pedido for legítimo, ele resistirá à espera e à verificação”, acrescenta.

Nesse caso, adverte a especialista, o golpe se sustenta porque se ancora não na tecnologia sofisticada, mas na credibilidade social — no caso, o uso da identidade de um bispo. Com a instantaneidade do Pix, o tempo de reação da vítima é reduzido.

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