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Stefan Zweig, qual é a pressa? Uma conversa com o escritor Deonísio da Silva.

Stefan Zweig, qual é a pressa? Uma conversa com o escritor Deonísio da Silva.

Stefan Zweig, qual é a pressa? 

Uma conversa com o Escritor Deonísio da Silva

O livro Lotte/Zweig (Ed. Leya) de autoria do nosso entrevistado é narrado em primeira pessoa, e o escritor trouxe para o leitor com rara sensibilidade a interação do escritor austríaco com o Brasil e com os brasileiros durante sua estadia no Rio de Janeiro, particularmente durante sua permanência na cidade serrana de Petrópolis. A justificada preocupação do escritor austríaco com as perseguições nazistas contra judeus, intelectuais e outras minorias esteve sempre presente em sua passagem pelo Brasil.Na segunda parte do romance Deonísio nos oferece uma outra instigante hipótese para contestar a versão oficial (e quase hegemônica) de que, diante do avanço das forças militares do eixo nazifascista sobre a Europa, o casal teria preferido renunciar a vida com um dramático pacto suicida a testemunhar o triunfo do racismo e da intolerância.

Mas e se não for bem assim? E se o pacto suicida fosse apenas uma cortina de fumaça arquitetada por agentes do Reich infiltrados no País? E, como todo exímio ficcionista, Deonísio explorou com a imaginação — mas também sempre atrelado a indícios nunca explorados – o percurso de Stefan Zweig e sua esposa Charlotte rumo ao trágico desfecho. Recomendo a leitura deste livro que já se tornou um clássico.

Blog Conto de Notícia Estadão – Prezado Deonísio, muito obrigado por conceder essa entrevista. Na época Zweig era um dos autores mais lidos do mundo. Conte-nos um pouco como te ocorreu a elaboração do romance Lotte Altmann/Stefan Zweig? Lembra-se das ideias iniciais motivadoras? Foi uma imagem ou algum elemento literário que te atraiu para narrar essa fascinante história? Qual foi o peso do alegado pacto suicida de 23 de fevereiro de 1942?

Deonísio: Inicialmente, foram leituras e falas de Jacob Pinheiro Goldberg e de Marília Librandi Rocha que deflagraram em mim a vontade de externar as minhas desconfianças. Todo escritor tem ideias nas quais acredita mais por intuição do que por algum procedimento lógico. E ao saber do que os dois pensavam, me animei como num êxtase. Eu sempre desconfiei de coisas provadas e aprovadas. Gosto de examinar os bastidores.

Jesus, um dileto filho do judaísmo, foi executado por Roma num assassinato de Estado. E eu, sendo preparado para o sacerdócio nos meus anos de seminário, rezava, contrito, e sem pensar: “rezemos também pelos torpes judeus que mataram Jesus”, expressão judeofóbica retirada da liturgia católica apenas recentemente em termos históricos, já quase nos anos 1970. O antissemitismo, assim como outros preconceitos anti-étnicos, produz monstros, às vezes involuntários. A minha memória brotou à luz de lembranças como esta e de leituras e resolvi dar uma versão clandestina da História, como é toda Literatura. A começar pelo tal pacto suicida. Alguns fazem e não o cumprem, outros não fazem o tal pacto e cumprem. O certo é que ninguém provou nem aprovou tal falso pacto. Aliás, poucas coisas não são falsas num caso de duplo homicídio em que a autópsia é proibida pelo presidente da República.

1- Blog Conto de Notícia – O curioso que sempre que há uma especulação que se posiciona a contrapelo, do previsível e contra o senso comum, a primeira tendencia é classificá-la como teoria conspiratória, mas como ficam as conspirações reais? O obvio é conspiratório?

Deonísio da Silva – Boas perguntas. O óbvio costuma fazer um estrago danado. “O rei está nu” faz com que outros vejam o que não queriam ver. Sim, o óbvio traz o germe da conspiração para que todos acreditem no que poucos manipulam para impor a todos uma versão oficial ou oficialesca.

Blog. A história de Stefan Zweig no Brasil encontra-se repleta de lacunas. Na sua investigação — já que o processo literário envolve uma pesquisa objetiva e subjetiva — qual foi a impressão pessoal sobre a personalidade dele? E qual era o papel de Lotte e seu peso nas decisões estruturais do casal?

A Lotte é acusada de tudo, seja explicitamente ou por omissão machista dos autores. Uma mulher culta e leal ao marido, a quem amava e por quem era apaixonada, aparece como uma mulher que não fazia nada, não lia, não escrevia, era uma maria-ninguém, ou uma maria vai com as outras. Dizem, por exemplo, “ah, ele sempre quis se matar, quem o tirava da depressão era a mulher anterior, a primeira esposa, Frida, mas Lotte era depressiva também”. Era? E depressivos levam aqueles a quem amam ao suicídio? No poço escuro da alma de cada pessoa, quem entra? Ninguém! São lançadas luzes para entendê-las. Chutatis chutandis, é como em outras relações: os professores ensinam, mas quem aprende, se aprendem, são os alunos, não os professores. Os alunos são soberanos e aprendem se quiserem. Ninguém consegue impor conhecimento. O médico sabe curar? Mas o enfermo, cliente ou sei lá que nome lhe seja dado, obtém a cura se quiser! Quem é que cura alguém à força? Estamos abolindo a vontade, sobretudo a vontade de saber.

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Blog – Em qual momento de inflexão na narrativa você começou a se concentrar no questionamento do suicídio? A despeito do escritor austríaco não ser um sujeito religioso, era obvia sua identificação com o povo judeu, como você interpretou a condição judaica de Zweig/Lotte?

Deonísio – A opção mais óbvia é a defesa da própria vida. E pelo que sei o povo judeu condena severamente o suicídio. Já viu um terrorista judeu se explodindo para matar inimigos? Talvez o suicídio seja sempre um assassinato coletivo. Que deixamos de fazer ou que impressão demos que o nosso semelhante achou melhor se matar? O antissemitismo consiste também em ignorar ou menosprezar certas peculiaridades do povo judeu, como, por exemplo, o amor e o cuidado para com a palavra escrita. Stefan Zweig era escritor! E a esposa Lotte tem vínculos essenciais com ele nisso tudo.

Blog – Sabidamente a autopsia não é ritualisticamente permitida pelo código de leis judaicas, neste sentido caso houve alguma tentativa de envenenamento viria a calhar a proibição de que a causa do óbito fosse esmiuçado. Qual o grau de premeditação?

Deonísio: Não era burro quem arquitetou tudo isso. É preciso reconhecer e entender a inteligência do inimigo. O inimigo estudou, examinou, planejou, conferiu e executou as tarefas. E deixou vestígios do que fez. Pareceu tudo certinho, de acordo, inquestionável. No mesmo século e no mesmo Brasil temos o caso do assassinato do jornalista Wladimir Herzog em que, para o esclarecimento da verdade, o assassinato dele na prisão e não o suicídio, como tentavam mentir, teve participação importantíssima no esclarecimento meu conterrâneo, o catarinense Dom Paulo Evaristo Arns. E o rabino Henry Sobel. Conheci os dois. E coordenei uma mesa-redonda inesquecível sobre o perdão em São Paulo na qual o rabino Sobel, perguntado sobre se o holocausto poderia ser perdoado, deu uma resposta antológica: quem perdoa são as vítimas e elas estão mortas e não podem mais responder.

Blog – Qual foi o impacto da publicação na época da primeira edição? Notou alguma pressão/censura por abordar um assunto tão polêmico que envolvia a ditadura Vargas, num governo – qualquer semelhança com a contemporaneidade pode ser apenas uma coincidência — que não escondia suas simpatias por regimes autoritários e antissemitas? Houve resenhas? Lembra de alguma que na época do lançamento do livro te marcou? Como os críticos encararam a ficção?

Deonísio:O livro foi publicado em 2012, ano da primeira edição. Teve diversas reimpressões e em 2013 saiu na Itália. Nesse meio tempo a editora Leya quebrou no Brasil. Lembro-me de muitas resenhas, todas favoráveis, mas meu depoimento sobre como fiz o livro, gravado na Casa Stefan Zweig em entrevista a Claufe Rodrigues, somente foi ao ar na TV Globo porque o diretor peitou as pressões. Talvez eu esteja te fazendo uma confidência precoce. É cedo para contar o que houve e ainda não pude comprovar certas intuições e desconfianças à luz de fatos. E um dos fatos foi: inicialmente não iam exibir a entrevista. Mas só soube disso muito tempo depois que ela foi ao ar e há morreu quem lutou para impedir que fosse ao ar. E “de mortuis nisi bene“. Este fato não está documentado, não está arrumadinho. Ainda. Sugiro perguntar o que houve nos bastidores ao Claufe Rodrigues, poeta de fina sensibilidade e jornalista competente e preparado.

Blog -Consta que naquela altura (1941-42) Zweig havia se convencido e concluiria que o Eixo venceria a Guerra e, portanto, não valeria a pena viver num mundo onde o nazismo e o fascismo triunfassem. O laudo e as anotações policiais que envolviam a investigação do duplo suicídio está repleto de falhas e omissões incluindo a provável negligência em relação a autopsia do casal.

Deonísio: Não sei se é no Georges Simenon ou em algum texto meu que li que para lançar suspeita sobre uma pessoa basta numa delegacia abrir uma pasta vazia e etiquetá-la: Fulano de Tal. Alguém vai procurar outra coisa sobre outra pessoa no mesmo arquivo e dá de cara com uma pasta com um nome. Pode ser de um amigo, de um desafeto, o nome de alguém. O nome, a primeira coisa que não escolhemos na vida. A investigação está, pois, em curso. Quem etiquetou está começando a alcançar seu objetivo.

Alguém, sem pesquisar muito, sem inquérito, no calor de hora, catalogou como duplo suicídio. Esta foi a minha desconfiança inicial. Por que fizeram isso com os dois cadáveres? Censuraram os cadáveres.  Porque cadáver fala! E diz muitas coisas. E as provas por vezes estão no corpo, o templo de nossa alma, nosso último reduto por aqui.

Blog -Como você imaginou o último dia de Zweig e Lotte?

Deonísio: Um comando nazista, vindo de algum país vizinho – por exemplo, a Argentina, refúgio de tantos deles – e executa o duplo assassinato, que pode ter sido ordem de fazer parecer suicídio. Não foi assim com outros? E por que não seria com eles? É dever de historiadores e biógrafos esclarecer os fatos.Meu dever é diferente: o romancista imagina o que poderia ter sido. E mente menos com o propósito deliberado de mentir, isto é, inventar como poderia ter sido. Dom João VI, rei de Portugal, morreu envenenado, mas só soubemos disso no ano 2.000. Antes a História tinha sempre negado. Por que não queria provar ou por que não podia?

Blog – O magnifico ator Carlos Vereza parece ter se inspirado em seu livro para montar e exibir uma peça dramatúrgica “A Mulher Silenciada” com muito sucesso de publico e que teve uma longa temporada de apresentações no teatro Carlos Gomes. Como se sentiu ao assistir o espetáculo?

Deonísio: Carlos Vereza é um ator de raro talento e um amigo muito querido. Gostei demais da peça. Ele generosamente diz que sem o meu livro, ele não teria escrito e feito a peça. Ele teria feito de qualquer modo, está sempre abraçado a boas causas e a transcendências, algumas das quais nos são comuns e as compartilhamos. Exemplo: a de que o acaso tem suas leis, como dizem os surrealistas, que entretanto as desconhecemos. Morando na mesma cidade, somente trinta anos depois de eu ter escrito diálogos para o filme “Aleluia, Gretchen”, de que ele foi um dos principais atores, voltamos a nos encontrar. Tínhamos envelhecido e era como se fosse uma cápsula do tempo: voltamos a conversas passadas, nunca interrompidas, Sempre aprendo muito com ele. E nesse meio tempo eu tinha escrito outro romance sobre o neologismo no Brasil, cujo título é Orelhas de Aluguel.

Blog -Depois do sucesso do livro e do interesse despertado você pensa em uma nova edição? Revista e ampliada? E em uma eventual nova versão você cogitaria algum acréscimo/mudança estrutural da trama? Chegou a cogitar um desfecho diferente para o livro? Cogitou um roteiro de filme?

Deonísio: Fiz assim com outro romance que publiquei em 2008: “Goethe e Barrabás”, do qual o Estadão deu um capítulo alguns antes com o título de “Goethe pede luz a Barrabás”, título original do romance quando eu o escrevia. É sobre as más escolhas que fazemos na vida. A edição da Almedina, de 2023, não é a mesma da Novo Século e traz o subtítulo: “as más escolhas que fazemos na vida”. Penso em fazer, em vez de nova versão do romance sobre o Stefan Zweig, uma nova narrativa: a versão de Lotte. A autocrítica me leva a reconhecer que poderia ter sido amplificada a versão de Lotte no romance. Falamos em trilogia, tetralogia e não temos “bilogia”. Acho que cabe mais um livro sobre Zweig e sou eu quem deve escrevê-lo. Quod scripsi, scriptum, disse Pilatos quando lhe pediram para retificar as frases da Cruz. Mas eu não sou Pilatos…

Blog -A famosa carta de despedida trazia a seguinte frase:

“Que lhes seja dado ver a aurora desta longa noite. Eu, demasiadamente impaciente, vou-me antes”.

Costuma-se afirmar que bilhetes de suicidas contém aspectos simbólicos que, uma vez estudados, podem revelar pistas das motivações para bem além do aparente e do senso comum. O bilhete deixado pelo casal te causou alguma impressão particular? Qual?

Deonísio: A primeira impressão foi que pode ter sido imposta esta redação. Uma pedra no mosaico para completar o quadro, organizá-lo rumo aos fins pretendidos pelos algozes. Você tem razão: o maior peso é simbólico. Precisamos decifrar melhor estes símbolos, abundantes em tais circunstâncias.

Blog – Uma mente lúcida pode ser assim classificada se escolhe o suicídio? Como encara a hipótese de George Canguilhém de que o objetivo das intenções suicidas é “reduzir a tensão a zero”? Na carta de despedida não te pareceu estranha a expressão “demasiado impaciente?”. “A indesejada das gentes” foi convidada pelo pré-morto?

Deonísio: Sim, é muito estranha a expressão “demasiado impaciente”. É surreal. Os psicanalistas terão mais a dizer sobre este viés tão importante.

Blog – Como exercício de imaginação se tivessem sobrevivido à guerra qual seria título do próximo livro de Stephan Zweig?

Deonísio: O título seria “Não tenha medo“. Stefan e Charlotte Zweig eram muito corajosos. O medo é mau conselheiro. A coragem é tua mais eficiente ajuda. Primeiro você é aliado de si mesmo, depois vem eventual ajuda alheia.

Blog – A proibição dos corpos descansarem em um cemitério judaico perdura. Não caberia reabrir as investigações sobre a morte dos dois?

Deonísio: Sim, caberia. Temos que lançar uma luz poderosa sobre o que considero uma grande “fake news“, uma farsa para a qual tantos deram sua contribuição involuntária. Eu acendi minha lanterninha, ela ilumina pouco, mas convida a reexaminar e conferir o que há ali, o que houve ali, o que ainda está ali.

Blog – Para finalizar te faço a seguinte provocação: haveria um futuro para Stefan Zweig no País do Futuro? Ou teríamos que parafrasear o jargão e adotar o slogan “Brasil, o País no qual o futuro só acontece amanhã?

Deonísio: Sim, mas o amanhã vem logo. Sempre vem, mesmo depois das noites mais escuras, como foi o caso da longa noite que levou embora o casal. Mas, se lutando, já é difícil, imagina se não lutar! João Cabral de Melo Neto diz no Morte e Vida Severina: “Muita diferença faz entre lutar com as mãos e abandoná-las para trás”. E no Brasil, como sabemos, até o passado é provisório. Encontrei Eduardo Portela quando saiu meu romance “Avante, soldados: para trás”. Ele me abraçou e cochichou “Deonísio, você resumiu o Brasil”. Gosto muito do Portela. Minhas estantes estão cheias de mortos que muito prezo, meus amigos muito queridos, alguns de milhares de anos, ele é um dos mais recentes a partir, autor de uma frase memorável quando era ministro da Educação e foi ameaçado de ser demitido: “Eu não sou ministro, eu estou ministro”. Eu não estou escritor, eu sou escritor. E sou professor. Eu estou editor, diretor, estive vice-reitor da maior Universidade Estácio de Sá quando a transformamos na maior do Brasil., mas você não foi e não é o cargo que ocupa. Por fim, algo indispensável: agradecer a você e ao Estadão por reacender esta chama, soprar sobre este borralho, há mais a descobrir.  Há a verdade, que é sempre somente uma.

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Abaixo, a integra da carta de despedida do casal: 

Antes de deixar a vida por vontade própria e livre, com minha mente lúcida, imponho-me última obrigação; dar um carinhoso agradecimento a este maravilhoso país que é o Brasil, que me propiciou, a mim e a meu trabalho, tão gentil e hospitaleira guarida. A cada dia aprendi a amar este país mais e mais e em parte alguma poderia eu reconstruir minha vida, agora que o mundo de minha língua está perdido e o meu lar espiritual, a Europa, autodestruído. Depois de 60 anos são necessárias forças incomuns para começar tudo de novo. Aquelas que possuo foram exauridas nestes longos anos de desamparadas peregrinações. Assim, em boa hora e conduta ereta, achei melhor concluir uma vida na qual o labor intelectual foi a mais pura alegria e a liberdade pessoal o mais precioso bem sobre a Terra. Saúdo todos os meus amigos. Que lhes seja dado ver a aurora desta longa noite. Eu, demasiadamente impaciente, vou-me antes.” (Stefan Zweig em sua carta de despedida, 1942)

 

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