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Apenas 8,5% da população em situação de rua recebeu acolhimento em noite de frio extremo

Apenas 8,5% da população em situação de rua recebeu acolhimento em noite de frio extremo

Das 1.071 pessoas em situação de rua na Capital, apenas 86 tiveram oportunidade de abrigo no Parque Ayrton Senna

Nas noites frias e chuvosas, quem mais sofre são aqueles que não têm um teto para se abrigar. Campo Grande tem 1.071 pessoas em situação de rua, mas apenas 80 foram acolhidas no Parque Ayrton Senna neste domingo (10). A sensação térmica chegou a -3,2°C e três homens morreram por suspeita de hipotermia na Capital.

A SAS (Secretaria Municipal de Assistência Social) disponibiliza ônibus para transportá-los até o Parque, na região Moreninhas. Além dos 80 abrigados, outros seis rejeitaram o acolhimento no Parque Ayrton Senna. Ou seja, 86 pessoas em situação de rua receberam oportunidade de acolhimento na Capital, neste domingo (10).

Assim, 91,5% da população de rua de Campo Grande não teve oportunidade de dormir no alojamento, montado especialmente para o período de frio.

No Centro POP, as pessoas em vulnerabilidade recebem alimentação, bebidas quentes e cobertores nos dias frios. O espaço abre de segunda a sexta-feira, das 7h às 17h. Quem recusa acolhimento no albergue temporário do Parque Ayrton Senna também ganha cobertores, segundo a SAS.

Na manhã desta segunda-feira (11), o Jornal Midiamax conversou com pessoas em frente ao Centro POP. Com cobertores, eles se agasalhavam como podiam para enfrentar a sensação térmica negativa do início do dia.

Sobrevivência

Enrolado em coberta, João preferiu dar entrevista sem se identificar (Leonardo de França, Jornal Midiamax)

João*, de 45 anos, trabalhava na área da construção civil, mas perdeu o emprego e a família pelo uso abusivo de álcool. “Procuro emprego para sair dessa vida de cachaça“, conta. Os familiares dele moram em Campo Grande, mas João não pode voltar para casa. “Não me aceitam por causa da bebida e estão certos, porque eu não quero prejudicar. Preciso me tratar para recomeçar a vida”, explica.

Ele ficou sabendo dos três rapazes que perderam a vida entre sábado (9) e domingo (10) em Campo Grande, por suspeita de hipotermia. Um idoso foi encontrado morto na calçada de um bar, outro corpo foi achado ao lado de uma unidade de saúde e o terceiro, dentro de uma casa abandonada. Em Dourados, outro homem foi encontrado morto às margens da BR-163.

No entanto, João não tomou conhecimento da possibilidade de abrigo para pernoitar no Parque Ayrton Senna. “Eu arrumei um papelão para dormir e fiquei em um lugar que não pinga sereno“, explica. Ele dormiu na região do bairro Coronel Antonino, distante cerca de 13 km do Parque. Como não teve acesso ao ônibus da SAS, precisaria caminhar por mais de 3 horas.

João diz que nunca viu um frio tão severo e vê muitos jovens sofrendo com as baixas temperaturas nas ruas de Campo Grande. Apesar da situação de vulnerabilidade, o homem se preocupa mais com os dependentes químicos, que perdem o senso de autodefesa. “Me preocupo com os que já estão perdidos na droga e não aguentam esse frio, porque não conseguem se proteger. Não pensam mais em si próprios.”

Abrigos permanentes

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Pessoas em situação de rua no Centro Pop (Leonardo de França, Jornal Midiamax)

O Parque Ayrton Senna é o único espaço público aberto para pessoas em situação de rua pernoitarem nos dias frios. A iniciativa é emergencial e temporária, geralmente acionada pela prefeitura quando a temperatura cai abaixo de 12°C.

Além disso, há também abrigos de acolhimento permanente. A população de rua pode ficar nas unidades da rede cofinanciada ou na Uaifa (Unidades de Acolhimento Institucional para Adultos e Famílias), única municipal.

A rede cofinanciada é formada por organizações da sociedade civil, que recebem repasses da prefeitura. Uma das unidades é a Casa de Passagem Resgate, voltada aos migrantes.

No entanto, nessas unidades e na Uaifa o acolhimento institucional é permanente e há lista de espera para ingresso. “Estou desde a semana passada esperando uma vaga para ir ao abrigo, para mudar de vida. Meu nome já está na lista”, diz João, otimista com a possibilidade de acolhimento permanente.

Busca ativa

Segundo a SAS, equipes do Serviço Especializado em Abordagem Social reforçam buscas ativas desde o início da semana, quando as temperaturas começaram a cair, além de agilizarem as respostas às solicitações de atendimento da população.

A pasta afirma que reforçou equipes e ampliou plantões para intensificar o trabalho de abordagem, que ocorre 24 horas nos sete dias da semana. Quem recusa acolhimento recebe cobertores e é orientado a buscar o Centro POP.

A população pode avisar a equipe de assistência social sobre pessoas em situação de rua em risco nos telefones 156, (67) 99660-6539 ou (67) 99660-1469.

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Maior frio do ano

Pelo segundo dia consecutivo, Campo Grande amanhece com sensação térmica negativa, segundo o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia). Nesta segunda-feira (11), a sensação chegou a -3,2 °C por volta das 6h. A previsão do tempo indica tempo firme, com temperaturas entre 7°C e 18°C ao longo do dia na Capital.

No sábado (9), Campo Grande viveu a noite mais fria de 2026, com sensação térmica de -3,2°C às 22h. Já na manhã do domingo (10), Dia das Mães, o registro subiu um pouco, para -1,7 °C.

Os termômetros marcam 7,9°C na manhã desta segunda-feira em Campo Grande. No entanto, a sensação térmica é mais baixa porque combina variáveis meteorológicas, como velocidade do vento, umidade e temperatura do ar. O nível de estresse por frio é considerado moderado pelo Inmet.

De acordo com o Inmet, a temperatura mínima deve subir gradualmente até sexta-feira (15). Na quarta, a mínima esperada é de 11°C; 16°C na quinta; e 17°C na sexta.

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Pessoas em situação de rua (Leonardo de França, Jornal Midiamax)

Quatro vítimas do frio em MS

Motorista de caminhão de lixo achou um homem morto em frente a um condomínio, na Rua Tamer Gelelaite, bairro Santo Amaro, em Campo Grande, ao lado da UBS (Unidade Básica de Saúde) Sírio-Libanês. O cadáver foi encontrado às 21h40 deste sábado (9), quando a sensação térmica era de cerca de -3,2°C. A vítima estava sem sapatos e vestia um casaco fino, camiseta e bermuda jeans.

Já na manhã deste domingo (10), Edson Romeiro Franco, de 63 anos, também foi encontrado morto, em frente a um bar no bairro São Jorge da Lagoa, em Campo Grande. Conforme o delegado Felile Rossaro, a vítima vestia calça jeans e um casaco de lã, mas não estava coberta. A principal suspeita é de hipotermia.

Em Dourados, cidade distante 228 km da Capital, um homem, ainda não identificado, foi encontrado morto às margens da BR-163, na manhã deste domingo (10). A suspeita inicial é de morte por hipotermia devido à baixa sensação térmica na cidade, de 1,8 °C.

Na Vila Moreninha 3, em Campo Grande, Enéias Marinho de Souza, 58 anos, foi encontrado morto em uma casa abandonada. Segundo o boletim de ocorrência, a polícia não descarta a possibilidade de morte decorrente de exposição ao frio.

O que diz a SAS?

O Jornal Midiamax perguntou à SAS, por meio da prefeitura de Campo Grande, como é feito o recolhimento de pessoas em situação de rua; em quais pontos ficam os ônibus; quantas pessoas atuam no SEAS para esse trabalho; como ocorre o acolhimento nos bairros; e qual o plano para as 931 pessoas que não recebem a oportunidade de acolhimento.

A pasta não respondeu até o fechamento desta matéria. O espaço segue aberto.

(*) Nome alterado para preservação da identidade, a pedido do homem, que vive em situação de rua.

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