A história do jovem da zona norte preso com 20 pedras de crack e investigado como mafioso na Itália
O Ministério Público Federal perguntou ao mafioso Vincenzo Pasquino com quem ele esteve em João Pessoa (PB). O homem responsável pela mais importante delação do tráfico atlântico desde que Tommaso Buscetta resolveu colaborar com a Justiça nos anos 1980 respondeu: “Comigo estava Rocco Morabito (chefe mafioso). Essa casa foi alugada pelo Pateta para nós. O Pateta mandava, junto com nós, com o Corintiano, droga para a Itália”. O procurador questionou quem seria o Corintiano. “O Nicholas, o Evangelista Nicholas.”

Nicholas Charles Evangelista Lopes, o Loko; integrante do PCC, ele foi preso em 2011 (foto). Solto, ligou-se aos chefes da associação entre o PCC e a ‘Ndrangheta e acabou como um dos ‘indagati’ da Operação Samba, na Itália. Foto: Secretaria da Administração Penitenciária
Pasquino acabava de tratar de um dos segredos confirmados por sua delação: a identidade de Nicholas Charles Evangelista Lopes, de 33 anos, o Loko, e seu papel no consórcio formado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) com a ‘Ndrangheta, a máfia da Calábria, a mais importante organização criminosa da Itália. A audiência na 16.ª Vara Criminal Federal de João Pessoa aconteceu no último dia 25 de março. Na videoconferência, via-se apenas a cabeça do declarante, que estava de costas, “por razões de segurança”, na imagem do vídeo.
“O Nicholas eu conheci quando cheguei no Brasil”, contou o mafioso. O relatório feito pela Polícia Federal ao encerrar as investigações da Operação Conexão Paraíba, em 2025, não deixa dúvida. O documento lembra que o brasileiro já havia sido preso e processado por tráfico de drogas e usava as “alcunhas de “Loko” e “Quilha Surf”, além de ser conhecido pela paixão por seu clube: o Corinthians.
”Informações indicam que Nicholas possui fortes laços com o PCC, agindo em todo o Brasil, adquirindo entorpecentes da Bolívia, Colômbia e Paraguai que são exportados em cargas aéreas e navios para toda a Europa, onde a facção tem focado seus esforços e expandindo seus negócios ilícitos”. Como Nicholas se transformou em um dos brokers do tráfico internacional de drogas é o que a reportagem do Estadão mostra a seguir.
Nascido em São Paulo, ele morou em Aracaju (SE), Guarujá (SP) e João Pessoa (PB), onde tinha, de acordo com o documento, “por atribuição, dar apoio a membros da máfia albanesa e a Vincenzo Pasquino.” Um dos alvos das Operações Samba, da Direção Distrital Antimáfia (DDA), de Turim, onde é investigado como mafioso, e da Operação Conexão Paraíba, da PF, Nicholas está foragido. A reportagem procurou a sua defesa bem como a de Demétrio e de Pasquino, mas nenhuma delas se manifestou. Os brasileiros negam os crimes; Pasquino os confessa.

Vincenzo Pasquino, o mafioso que delatou o consórcio da ‘Ndrangheta com o PCC para o tráfico de drogas no Atlântico, foi preso pela Polícia federal em João Pessoa e levado para Brasília. Foto: Reprodução/Polícia Federal
A primeira prisão no Jardim Peri
A história da ascensão de Nicholas no universo do tráfico de drogas remonta a 20 de maio de 2011, quando ele tinha 18 anos e foi preso por policiais militares na Rua Odassi Massali, no Jardim Peri, na zona norte de São Paulo. Os PMs contaram que ele tentou fugir ao avistar a viatura, mas acabou detido. Com ele havia 20 pedras de crack que pesavam 2,9 gramas ao todo, e R$ 19. Nicholas disse que era usuário e que fora à biqueira no Jardim Peri para comprar droga, mas negou ser dono das 20 pedras.
Acabou condenado a 5 anos de prisão. Ficou preso um ano e acabou solto, pois era primário. Pouco depois, obteve uma nova vitória na Justiça, quando sua pena foi reduzida pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) para 2 anos e 4 meses a serem cumpridos em regime aberto. Ficou proibido de frequentar bares e de portar armas, tinha obrigação de ter uma ocupação lícita e de se recolher à noite em sua casa.
Em 14 de janeiro de 2017, Nicholas foi novamente detido com drogas – 76 pinos de cocaína no Guarujá. Ele teria oferecido R$ 100 mil aos policiais para não ser preso. Acabou autuado em flagrante. Cinco meses depois, a 1.ª Vara Criminal do Guarujá lhe concedeu a liberdade provisória. Em seguida, foi absolvido. Estava novamente em liberdade.
Foi nessa época que o jovem Nicholas conheceu Demétrio Batista de Oliveira, o Pateta citado por Pasquino em seu depoimento. Empresário estabelecido em Santos, Demétrio era casado com a irmã da mulher de Júlio Cesar Guedes de Moraes, o Julinho Carambola, o segundo na hierarquia do PCC. Havia sido preso em 10 de outubro de 2017 na Operação Contentor, deflagrada pela PF após dez meses de investigações sobre remessas de cocaína, feitas a partir do porto de Itapoá, em Santa Catarina, para Antuérpia, na Bélgica.

Fiscalização da Receita apreendeu, em 11 de fevereiro de 2025, 815 kg de cocaína no Porto de Santos escondidos em um carregamento de cem toneladas de café: traficantes ligados ao PCC dominam a rota que sai dali para Europa. Foto: Receita Federal
Paixão pelo futebol e por roupas de grife
Demétrio era apontado como o maior gestor do grupo responsável por transportar a droga boliviana até o porto e estaria criando uma fábrica de alimentos enlatados para exportação. E teria estabelecido ligação com importantes mafiosos, como Rocco Morabito, que seria preso em 2021 com Pasquino em João Pessoa.
Tudo ia bem para Demétrio, Nicholas, Pasquino e Morabito até que o esquema começou a desmoronar após a polícia francesa se apoderar dos servidores do aplicativo de comunicação criptografada Sky ECC, usado pelas máfias e por organizações terroristas. Os dados foram repassados à polícia italiana.
Segundo os investigadores italianos, já em 2019, Nicholas passou a tratar com Pasquino do envio de toneladas de entorpecentes da América do Sul para a Europa. Mensagens do Sky ECC mostram que eles discutem o envio de cargas para Roterdã (Holanda) e para Hamburgo (Alemanha). Nicholas usava cinco diferentes chips do sistema Sky ECC registrados com os codinomes Loko, Corinthians, Neymar2 e Coringa.
“Usava o ‘nickname’ Coringia/Coringa/Corinthiano porque é um ‘ultra’ (torcedor organizado) do time de futebol paulista Corinthians”, escreveu a DDA de Turim. Nicholas também teria especial interesse em roupas de grife e pede aos italianos que tragam ao Brasil sapatos e vestidos da marca Louis Vuitton para sua mulher, que preferia os modelos casuais.

PF derruba rede de tráfico com PCC e máfia italiana. Foto: Polícia Federal
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A atuação na Europa e o desabafo para o ‘pai’
Em mais uma demonstração de sua escalada na organização, o brasileiro passou a atuar na Europa. Em janeiro de 2020, Nicholas entregou em Málaga um carro cheio de cocaína para o mafioso Vito Luigi Basile, que levou o carregamento a Turim, na Itália. Depois, Nicholas esteve na Itália e tratou de outro carregamento de drogas com os mafiosos Nicola De Carne e Pasquino. A cocaína sairia do porto de Santos em direção à Espanha, onde Nicholas manteve reuniões com a ‘Ndrangheta. O Estadão não encontrou as defesas de De Carne e Basile.
A droga embarcada em contêineres no Brasil, no Uruguai, no Panamá e no Equador rumava para a Europa, a Ásia e a Oceania. Em 25 de agosto de 2020, Pasquino e Nicholas trataram com traficantes sérvios, albaneses e italianos da cobrança feita por brasileiros do PCC, ligados a Nicholas, sobre o pagamento de € 840 mil pela droga que entregaram a albaneses ligados à ‘Ndrangheta. Além dessas mensagens, os investigadores colecionaram mensagens com fotos de carregamentos de drogas e pacotes de cocaína.
Nicholas chegou a ser investigado na época na Operação Retis, da PF, no Paraná, mas conseguiu escapar. Ele chamava Demétrio de “pai”. E demonstrava muito respeito pelo amigo nas mensagens até ser preso na Espanha em janeiro de 2023. No mesmo, ano acabou liberado e agora está foragido, com a prisão decretada no Brasil. Um dia, reclamou para o “pai”.
Nicholas escreveu: “Desde quando chegaram esses italianos, sei que a gente só se lascou; tudo se comprometeu com os conflitos. O senhor foi tranquilo, de cabeça limpa. Eu sei que a gente vai se levantar. Eu confio minha vida ao senhor. Eu quero trabalhar, meu velho, não quero mudar de vida não. Quero só ter uma estrutura e viver em paz com minha família. É igual você fala: é saber ganhar dinheiro e não gastar, pra ter o que gastar com advogado”.

Nicholas Charles Evangelista Lopes, o Loko, um dos acusados na Operação Samba; integrante do PCC, ele foi alvo também da Operação Conexão Paraíba, da PF. Foto: Reprodução/Policia Federal
Demétrio foi preso em São José dos Campos, em dezembro de 2024. Era um dos alvos da Operação Conexão Paraíba, da Polícia Federal, um dos braços brasileiros da Operação Samba. Continua preso até hoje. Ele ouviu Pasquino na audiência de março. Nicholas não. O jovem da zona norte de São Paulo é o principal foragido do caso.



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