Em quais situações ficará mais difícil para brasileiros conseguirem a cidadania portuguesa? Entenda

Mudança na Lei da Nacionalidade de Portugal altera critérios para concessão da cidadania. Foto: Smallredgirl/Adobe Stock
Portugal promulgou novas mudanças na Lei da Nacionalidade que endurecem as regras para imigrantes e já provocam apreensão entre brasileiros que vivem ou pretendem viver no país. A legislação, aprovada no começo do mês e sancionada pelo presidente português, começa a valer nesta terça-feira, 19. A nova lei altera critérios para concessão da cidadania, amplia prazos de residência e reforça exigências de integração.
As alterações atingem diretamente cidadãos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), entre eles os brasileiros, que representam hoje uma das maiores comunidades estrangeiras em território português.
Para o advogado Wilson Bicalho, especialista em direito migratório e professor de pós-graduação na área, o principal impacto está no aumento do tempo necessário para solicitar a nacionalidade portuguesa.
“O ponto mais relevante é o aumento do prazo mínimo de residência legal. Para cidadãos da CPLP, como os brasileiros, o prazo passa de cinco para sete anos. Já para cidadãos de outros países, sobe para dez anos”, afirma.
Segundo ele, a nova legislação também altera a forma de contagem desse período. Antes, a parte do tempo em que o imigrante aguardava a emissão da autorização de residência podia ser considerada no processo. Agora, a contagem passa a valer somente após a emissão formal do documento.
“Isso desconsidera um período que pode chegar a até um ano, quando a pessoa entrou legalmente no país e ficou aguardando a documentação”, explica Bicalho.
A advogada especialista em direito internacional, Juciana Correa destaca que “essa alteração impacta diretamente o planejamento de quem já estava próximo de iniciar o processo. A mudança pode atrasar projetos de permanência definitiva e acesso a direitos como a cidadania europeia”.
Além do aumento do prazo, a lei endurece a análise dos pedidos de nacionalidade e reforça a exigência de comprovação de integração cultural e domínio da língua portuguesa.
Impacto sobre brasileiros
De acordo com a advogada especialista em direito internacional, o momento exige atenção redobrada. “A nova lei torna as regras mais duras e deve afetar muitos brasileiros, por isso, é fundamental ter atenção às novas normas”, explica.
A mudança atinge principalmente brasileiros que já residem em Portugal com expectativa de obter a cidadania em um prazo mais curto. “Isso altera completamente o planejamento migratório de milhares de famílias”, diz o advogado da Bicalho Consultoria.
Apesar do endurecimento, ele ressalta que os brasileiros ainda permanecem em situação relativamente mais favorável em comparação a cidadãos de países fora da CPLP, que enfrentarão exigências ainda maiores.
Bicalho afirma que há uma percepção crescente de endurecimento no ambiente jurídico migratório português. “A gente passa a ter uma exigência maior de documentos e uma visão mais rigorosa sobre integração e vínculo efetivo no país.”
Filhos de imigrantes
As mudanças também afetam crianças nascidas em Portugal, filhas de imigrantes. Pela regra anterior, bastava que um dos pais estivesse em situação regular no país para que a criança pudesse obter a nacionalidade portuguesa de forma facilitada. Agora, passa a ser exigido um período mínimo mais longo de residência legal dos pais.
“Portugal deixa de adotar um modelo mais automático e passa a exigir uma ligação migratória mais consolidada da família no país”, afirma Bicalho.
Na avaliação do especialista, a alteração busca evitar situações em que famílias se mudem para Portugal apenas para garantir a nacionalidade portuguesa aos filhos.
Na prática, crianças nascidas recém-chegadas e ainda sem tempo suficiente de residência legal poderão deixar de receber automaticamente a cidadania portuguesa e manter apenas a nacionalidade de origem dos pais.
Debate constitucional

Parte da nova legislação já voltou a ser discutida após manifestação do Tribunal Constitucional de Portugal. Foto: Wilfried-R./Adobe Stock
Parte da nova legislação já voltou a ser discutida após manifestação do Tribunal Constitucional português. Um dos pontos questionados envolve a possibilidade de perda da nacionalidade adquirida como pena acessória em determinados crimes.
Segundo Bicalho, o entendimento do tribunal é que a medida poderia criar uma distinção entre portugueses natos e naturalizados. “O Estado entende que isso criaria cidadãos de primeira e de segunda categoria, porque alguns poderiam perder a nacionalidade pelo mesmo crime em que outros não perderiam”, afirma.
Segurança jurídica e imagem internacional
Para especialistas, as mudanças também têm potencial de afetar a imagem internacional de Portugal como destino seguro para imigração e investimentos.
“Portugal construiu nos últimos anos uma imagem de estabilidade, acolhimento e segurança jurídica. Alterações tão profundas e sucessivas acabam gerando preocupação no exterior”, diz Bicalho.
Segundo ele, o impacto vai além da imigração e pode alcançar investidores, profissionais qualificados, empresas e famílias estrangeiras que analisam o país como destino estratégico. “A discussão hoje não é apenas sobre imigração. É também sobre confiança institucional e previsibilidade jurídica.”
Debate politizado
O advogado defende a necessidade de regras migratórias claras, mas avalia que o tema passou a ser fortemente influenciado pelo ambiente político português. “Muitas vezes a discussão deixou de ser técnica e passou a ser conduzida por discursos ligados ao contexto eleitoral e ao combate à imigração”, afirma.
Ele destaca ainda a importância econômica dos imigrantes para Portugal, especialmente diante do envelhecimento populacional e da escassez de mão de obra em diversos setores. “Os imigrantes contribuem para a economia, para o mercado de trabalho, para a segurança social e para o crescimento demográfico.”
Na avaliação do especialista, os brasileiros ocupam posição singular nesse cenário devido à proximidade cultural e linguística com Portugal.
“Talvez o brasileiro seja o povo que mais facilmente consegue se integrar em Portugal”, afirma. “Regular a imigração é necessário, mas isso precisa ser feito com inteligência, sensibilidade e visão de futuro.”
Diante das mudanças, a especialista Juciana Correa reforça a importância de buscar orientação adequada antes de iniciar qualquer processo migratório.
“Cada caso precisa ser analisado individualmente, considerando as novas regras e os impactos específicos para cada perfil. As alterações marcam um novo momento na política migratória portuguesa e reforçam a necessidade de preparo para quem deseja transformar o país em destino definitivo”, finaliza Juciana.



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