Conectividade na agricultura esbarra em capacitação e qualidade
A digitalização do campo brasileiro avança em ritmo acelerado, impulsionada por sensores, drones, satélites e sistemas cada vez mais integrados. No entanto, dois entraves persistem e ajudam a explicar por que boa parte do potencial dessa transformação ainda não se concretizou: a falta de conectividade de qualidade e a necessidade de capacitação técnica para operar um ecossistema cada vez mais complexo. O tema esteve no centro de uma das sessões do Fórum de Infraestrutura e Políticas Públicas, organizado pelo Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado de São Paulo.
A agricultura vive hoje uma transição que combina diferentes estágios tecnológicos. De um lado, práticas já consolidadas da agricultura de precisão permitem mapear a variabilidade do solo, da produtividade e da umidade em uma mesma área. De outro, a agricultura digital amplia esse alcance ao integrar dados em tempo real, conectando máquinas, sensores e plataformas.
Explosão de dados muda a lógica do campo
Esse salto é resultado direto da multiplicação de fontes de informação no campo. Dados podem ser coletados por sensoriamento orbital, com imagens de satélite; por via aérea, com drones e aeronaves; ou diretamente no solo, com sensores instalados em máquinas e equipamentos. O resultado é um volume inédito de informações que, quando bem interpretadas, permitem decisões mais eficientes — da aplicação de insumos ao manejo da irrigação.

Luís Henrique Bassoi, da Embrapa: “Temos ferramentas e plataformas, mas isso não traz resultado sem conhecimento agronômico” Foto: Tiago Queiroz/Estadão Blue Studio
Na prática, o produtor já pode acompanhar operações pelo celular, registrar dados em tempo real e até comandar equipamentos remotamente. Mapas digitais revelam diferenças dentro de um mesmo talhão, indicando onde aplicar mais ou menos fertilizante, água ou defensivos. Em sistemas mais avançados, sensores e estações meteorológicas conectadas permitem monitoramento contínuo, dispensando medições manuais frequentes.
Tecnologia avança mais rápido que o conhecimento
Mas transformar dados em ação ainda é um desafio central. “Temos uma chuva de ferramentas e plataformas, mas isso não traz resultado sem conhecimento agronômico”, afirma o agrônomo Luís Henrique Bassoi, pesquisador da Embrapa. A observação sintetiza um dos principais gargalos do setor: a tecnologia avança mais rápido do que a capacidade de absorção por parte dos usuários.
Esse descompasso se torna ainda mais evidente com a explosão recente das agtechs, startups focadas em soluções específicas para o agro. Embora ampliem as possibilidades, essas ferramentas também aumentam a complexidade do ambiente decisório, exigindo do produtor maior capacidade de análise e integração.
Agricultura 5.0 ainda é exceção
Ao mesmo tempo, o setor caminha para um novo patamar. Se a agricultura 4.0 já incorporou automação, telemetria e digitalização, a chamada agricultura 5.0 começa a emergir, baseada na integração total de sistemas. Nesse modelo, operações se conectam de ponta a ponta: a colheita aciona automaticamente a logística, enquanto dados de mercado e recomendações de compra chegam em tempo real ao produtor.
Apesar de promissor, esse cenário ainda é restrito. “Existem fazendas explorando quase todo o potencial da agricultura digital, mas são exceções”, explica Ricardo Arruda, especialista em agricultura digital. A maioria ainda opera em níveis intermediários de adoção tecnológica.
Gargalo estrutural: conexão insuficiente no campo
Parte dessa limitação está na infraestrutura. A conectividade no campo brasileiro segue desigual e, em muitos casos, insuficiente. Apenas cerca de um terço da área agrícola conta com algum nível de conexão. Em regiões relevantes do Cerrado, a cobertura pode ser inferior a 12%. Mesmo onde existe sinal, a qualidade frequentemente não atende às demandas das tecnologias digitais.

Para o agrônomo Ricardo Arruda, o cenário da agricultura 5.0 é promissor, mas ainda restrito Foto: Tiago Queiroz/Estadão Blue Studio
O impacto é direto: sem conexão estável, sistemas deixam de operar em tempo real, dados não são transmitidos com eficiência e o potencial de integração se perde. “O Brasil está conectado socialmente, mas ainda não agronomicamente”, avalia Arruda.
Ganhos de eficiência e sustentabilidade
A limitação da conectividade compromete, sobretudo, o avanço de aplicações mais sofisticadas. Tecnologias como aplicação em taxa variável, por exemplo, dependem da integração de diferentes camadas de informação. Com base em mapas de produtividade, biomassa e fertilidade, é possível ajustar o uso de insumos dentro de um mesmo talhão, aumentando a eficiência e reduzindo desperdícios.
O uso combinado de drones, satélites e inteligência artificial amplia ainda mais essa capacidade. Imagens de alta resolução permitem identificar plantas daninhas, falhas de plantio e variações no desenvolvimento das culturas. A partir disso, pulverizadores realizam aplicações localizadas, com economia significativa de insumos e água — em alguns casos, reduzindo em até 90% o uso de herbicidas.
Além do ganho econômico, há impacto ambiental relevante. A redução no uso de insumos e recursos naturais contribui para uma produção mais sustentável, alinhada às exigências de mercado e às pressões por menor impacto climático.
Capacitação é o elo decisivo
Ainda assim, especialistas apontam que a tecnologia, por si só, não resolve os desafios do campo. A presença física na lavoura continua indispensável para interpretar dados e identificar problemas que não aparecem nas imagens. A digitalização, nesse sentido, atua como ferramenta de direcionamento — indicando onde olhar, mas não substituindo o olhar técnico.
Esse cenário reforça a centralidade da capacitação. Operar máquinas com alto nível de tecnologia embarcada, interpretar mapas e integrar diferentes plataformas exige formação específica. Sem isso, há risco de subutilização dos recursos disponíveis.
A trajetória recente sugere que parte dessas barreiras tende a diminuir com o tempo. Tecnologias hoje caras e complexas tendem a se popularizar, como ocorreu com os smartphones. Ao mesmo tempo, iniciativas de pesquisa e difusão de conhecimento — como as conduzidas pela Embrapa — buscam acelerar esse processo, oferecendo suporte técnico e material especializado.
No entanto, a consolidação da agricultura digital em sua plenitude dependerá da convergência entre três fatores: infraestrutura de conectividade, capacitação profissional e integração eficiente das tecnologias disponíveis. Sem esse tripé, o campo brasileiro seguirá operando abaixo de seu potencial máximo — mesmo diante de uma das revoluções tecnológicas mais profundas de sua história recente.



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