Golpe digital, assalto à mão armada, latrocínio: quais são os principais medos dos brasileiros?
Sua rua é perigosa? Radar da Criminalidade do ‘Estadão’ mostra roubos e furtos em todos os endereços
Ferramenta interativa permite consultar o nº de crimes em cada ponto da cidade com base em dados da Secretaria da Segurança Pública do Estado. Crédito: Amanda Botelho e Vitor Zanon/Estadão
Ser vítima de golpe com perda de dinheiro pela internet ou pelo celular é o medo mais frequente entre os brasileiros, aponta estudo divulgado neste domingo, 10, pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) em parceria com o Instituto Datafolha. Ao todo, 83,2% dos entrevistados relataram temer serem alvos desse tipo de crime.
Em seguida, os medos mais prevalentes entre a população são o de ser roubado à mão armada (82,3%) e o de ser morto durante um assalto (80,7%).
“Normalmente, o maior medo da população é o medo de ser assassinado, em muitas pesquisas, a gente já encontrou isso como resultado”, afirma Samira Bueno, diretora-executiva do Fórum. “E nessa pesquisa chamou atenção que o maior medo indicado pela população é o de ser vítima de um golpe, de uma fraude.”
Os dados ajudam a explicar: a pesquisa aponta que, em termos de frequência, a situação mais vivenciada pelos brasileiros – 15,8%, ou cerca de 26,3 milhões de pessoas – foi ser “vítima de um golpe e perder dinheiro pela internet ou celular”.
“Chama a atenção que a maior vitimização é também o maior medo sinalizado pela população na bateria anterior, indicando que o medo não é abstrato, mas tem a ver com a experiência concreta das pessoas”, afirmam os pesquisadores.
Especialistas orientam usuários a evitar exposição de dados pessoais em aplicativos como o WhatsApp. Foto: Daniel Teixeira/Estadão
Conforme as últimas edições do Anuário do Fórum, os crimes de estelionato superaram a marca dos 2 milhões de registros em cada um dos últimos anos de análise (2023 e 2024). Como vem mostrando o Estadão, a diversidade de abordagens, inclusive com uso de inteligência artificial, vem gerando preocupação.
“As pessoas têm medo de tomar um golpe porque esse é o crime que tem mais afetado a população”, afirma Samira. Ela ressalta que, por ser uma modalidade específica de crime, os golpes demandam ações específicas – o policiamento nas ruas, diz, não é uma delas. “É um medo que passa pela tela, que não passa necessariamente pelo contato físico”, afirma.
Quais são os medos mais prevalentes na população?
- 83,2% dos brasileiros dizem ter medo de ser vítima de um golpe e perder dinheiro pela internet ou celular;
- 82,3% afirmam ter medo de serem roubados à mão armada;
- 80,7% relatam medo de serem mortos durante um assalto;
- 78,8% têm medo de ter o celular furtado ou roubado;
- 78,6% dizem ter medo de serem roubados ou assaltados na rua;
- 77,5% afirmam ter medo de serem vítimas de “bala perdida”;
- 76,1% relatam medo de ter a residência invadida ou arrombada;
- 75,1% dizem ter medo de serem assassinados;
- 66,2% afirmam ter medo de serem vítimas de agressão sexual;
- 65,3% relatam medo de ter a aliança ou outra joia arrancada em um assalto;
- 59,6% dizem ter medo de serem agredidos fisicamente por causa de sua escolha política ou partidária;
- 47,6% afirmam ter medo de andar pela vizinhança depois de anoitecer;
- 42,2% relatam medo de serem vítimas de agressão física pelo marido, esposa, namorado(a), parceiro(a) íntimo(a) ou ex-parceiro(a).
A pesquisa indica que, em 11 das 13 situações de crime e violência, 50% dos brasileiros declararam ter medo delas. A projeção consolidada indica ainda que 96,2% dos brasileiros com 16 anos ou mais têm medo de ao menos uma dessas situações.
“Trata-se, portanto, de um sentimento quase universal, que não se restringe a grupos específicos nem a experiências isoladas, mas estrutura a relação dos indivíduos com o espaço urbano, com seus bens, com o próprio corpo e com o ambiente digital”, afirmam os pesquisadores.
Para Renato Sérgio de Lima, diretor-presidente do FBSP, o momento atual é “de consolidação criminal, em torno de um conjunto de organizações que, de certa forma, têm controlado territórios, mercados, economias e, sobretudo, regulado a vida da população”.
O pesquisador destaca que mesmo dinâmicas de roubo de celular, por exemplo, passaram a ser marcadas pela atuação de uma cadeia focada em invadir celulares, em prática mais organizada.
“Por trás de um crime que antes podia ser difuso, podia ser desorganizado, nós temos cadeias criminais organizadas, que vão sendo reguladas e consolidadas sobretudo por PCC (Primeiro Comando da Capital) e Comando Vermelho, cada um com sua dinâmica bastante diferente, mas não só”, afirma.
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O estudo “Medo do Crime e Eleições 2026: Os Gatilhos da Insegurança”, encomendado pelo FBSP ao Instituto Datafolha, foi realizado entre os dias 9 e 10 de março deste ano, com a expectativa de captar não só a vitimização da população, mas também as modalidades de crime que, em geral, são mais recorrentes quando se fala de medo.
A pesquisa divulgada neste domingo utilizou metodologia quantitativa por meio de entrevistas pessoais. Os entrevistados foram abordados em pontos de fluxo populacional, distribuídos geograficamente nas áreas pesquisadas.
O estudo teve abrangência nacional, incluindo regiões metropolitanas e cidades do interior de diferentes portes, em todas as regiões do Brasil, em 137 municípios. A pesquisa foi realizada com a população brasileira, de 16 anos ou mais. A margem de erro para o total da amostra é de 2 pontos para mais ou para menos, considerando um nível de confiança de 95%. A amostra total foi de 2.004 entrevistas.
Segundo Lima, um dos objetivos do estudo foi tentar orientar um debate eleitoral mais programático. “A gente não está falando aqui de proposta para cada um dos problemas apontados, mas em indicar quais são os fenômenos que deveriam ser priorizados pelo poder público e pelos futuros candidatos, seja a governos estaduais ou ao governo federal, do ponto de vista de uma política de segurança”, diz.
O lançamento ocorre em meio a um momento de protagonismo da segurança pública. O governo federal vai lançar na próxima terça-feira, 12, um plano de combate ao crime organizado. As ações preveem um investimento de R$ 960 milhões ainda neste ano. Na última semana, o tema também foi um dos assuntos da conversa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com Donald Trump, nos Estados Unidos.



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