“O Diabo Veste Prada 2” mostra que não dá para baixar a guarda nas redes sociais
Andy Sachs (Anne Hathaway, esquerda) e Meryl Streep (Miranda Priestly), em cena de “O Diabo Vestre Prada 2” – Foto: reprodução
Duas décadas são suficientes para abalar ícones e demolir modelos de negócios outrora bem-sucedidos, se não forem bem cuidados. A crise da revista “Runway”, retratada em “O Diabo Veste Prada 2”, demonstra didaticamente como ninguém está imune a isso, não importa seu tamanho ou setor.
O filme estreou com força nos cinemas, trazendo novamente Meryl Streep, como a impiedosa editora Miranda Priestly, e a idealista Andy Sachs, vivida por Anne Hathaway. O drama da publicação reflete o do jornalismo e escancara um movimento que vem transformando decisivamente a sociedade. Ao longo de 20 anos, a imprensa perdeu sua posição de farol do debate público e, com isso, a polarização se instalou.
Não se trata de se ter menos jornalismo. O grande problema da mídia profissional é que ela se desconectou do seu público, algo grave para qualquer negócio, mas mortal para uma atividade cuja própria existência se justifica pela representatividade social.
As redes sociais perceberam o vazio formado e o ocuparam de forma avassaladora. As big techs prenderam o jornalismo em uma gaiola e agora, seguindo apenas seus interesses opacos, enterram uma notícia importante para promover uma grande porcaria engajadora. E a inteligência artificial deve agravar esse quadro.
Aí reside a grande crise: engana-se redondamente quem pensa que isso é um problema do jornalismo. Esse poder de vida ou morte das plataformas digitais paira sobre as cabeças de todas as pessoas e todas as empresas.
Estamos perdendo o controle sobre como as pessoas nos veem, e quanto do que fazemos é visto e compreendido corretamente por elas.
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No filme, Peter (Patrick Brammall), interesse romântico de Andy, discute com ela a “evolução” inevitável de qualquer negócio, de jornalismo a farmácias. Para ele, formatos e produtos devem se adaptar à conveniência do consumidor. Andy reage a isso, argumentando que a conveniência não pode matar a essência de uma operação, e que há preços éticos e humanos altos demais para serem pagos.
Esse choque de visões define o mundo atual, pois os dois lados têm argumentos válidos, mas que parecem ser irreconciliáveis. É verdade que a experiência do cliente nunca foi tão decisiva, mas exagerar nesse remédio pode transformá-lo em um veneno que mata os valores e a identidade que vincularam o produto a seu público.
A solução óbvia é encontrar um equilíbrio entre os dois, mas falar é muito mais fácil do que fazer, especialmente em um cenário em que as plataformas digitais conseguem convencer as massas de que seus interesses corporativos deveriam ser os de todo mundo. O bom jornalismo se recusa a flexibilizar sua ética e boas práticas, o que é louvável, mas falha em criar a tal conveniência. E, nessa dificuldade, estão muitas outras empresas que parecem incapazes de escapar do ostracismo digital.
Como em qualquer crise, ela não veio da noite para o dia. Incontáveis reportagens dos próprios veículos de comunicação a anunciaram, mas eles ignoraram olimpicamente as mudanças de mentalidade que o meio digital promoveu. Ironicamente, o jornalismo continua existindo e até pautando muito do que se fala nas redes, mas o que é visto e principalmente como é visto acabam sendo determinados pelos donos dos algoritmos.
Viver em função do gosto constantemente variável dos algoritmos é um erro fatal. Em um primeiro momento, pode fazer sentido, pois as plataformas digitais dão visibilidade àqueles que se submetem a elas. Mas esse fôlego é curto, e todos são jogados ao mar quando não interessam mais às big techs.
“Porteiro” digital e fragmentado
Do jornalismo às farmácias, a Internet fez com que o interesse público deixasse de ser organizado em torno de poucos intermediários confiáveis para se tornar uma arena fragmentada, guiada por algoritmos e disputas permanentes por atenção.
Qualquer pessoa passou a disputar espaço com grandes marcas. Mas os algoritmos não privilegiam qualidade ou veracidade, e sim engajamento apenas, em que futilidades e conflitos costumam gerar mais cliques do que apuração cuidadosa.
Com isso, pilares da sociedade passaram a ser questionados continuamente, incluindo imprensa, ciência, universidades e governos. Isso revelou falhas dessas instituições, mas também abriu espaço para campanhas organizadas de descredibilização, frequentemente impulsionadas por grupos que se beneficiam do caos informacional.
Nem a outrora poderosa “Runway”, que gastava facilmente US$ 300 mil em um ensaio fotográfico, resistiu. No novo filme, sua edição impressa ficou tão fina que poderia ser usada como fio dental, nas palavras da própria Priestly.
Curiosamente, a moda pode nos indicar caminhos para escapar desse dilema. Quem constrói sua identidade, carreira e visão em torno dela tende a envelhecer com o hype. Por outro lado, aqueles que mantêm certa distância crítica atravessam mudanças sem depender das próximas ondas de validação coletiva, cada vez mais curtas.
Hoje, as tendências vão além das roupas e do comportamento, moldando opiniões, consumo, tecnologia e até posicionamentos políticos. As plataformas digitais aceleraram esse mecanismo, garantindo visibilidade instantânea ao que está “na moda”, enquanto o que exige reflexão costuma perder espaço.
“Não seguir a moda” não implica em rejeitar toda novidade ou assumir uma postura elitista de negação do presente. Significa preservar autonomia intelectual, cultivando a diferença entre entender uma tendência e ser absorvido por ela.
Quem não tenta desesperadamente acompanhar tendências pode construir algo mais duradouro e original. Algumas das ideias mais relevantes surgiram de pessoas que resistiram a consensos rasos do momento, e isso vale para a imprensa, farmácias e qualquer outro negócio.
Em um mundo feito tóxico pela desinformação, o jornalismo se faz mais necessário do que nunca, mesmo deixando de ocupar o centro da conversa. O desafio da imprensa e de todos nós passou a ser a compreensão do espírito desse tempo em que vivemos, sem nos tornar reféns dele.


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