Um terço da população já deixou de sair com celular por medo de assalto, mostra estudo
Sua rua é perigosa? Radar da Criminalidade do ‘Estadão’ mostra roubos e furtos em todos os endereços
Ferramenta interativa permite consultar o nº de crimes em cada ponto da cidade com base em dados da Secretaria da Segurança Pública do Estado. Crédito: Amanda Botelho e Vitor Zanon/Estadão
A possibilidade de fazer lucro não só com a venda do aparelho em si, mas também pela realização de desvios pelo Pix e pela aplicação de diferentes tipos de golpes, fez o celular se solidificar como o principal alvo de criminosos em atuação pelas ruas do País. Uma das consequências silenciosas disso é a mudança na rotina de parte significativa da população do País.
Estudo divulgado neste domingo, 10, pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) em parceria com o Instituto Datafolha aponta que praticamente um terço dos brasileiros (33,5%) já deixou de sair com o aparelho celular por medo de assalto.
“O celular hoje sintetiza em grande medida a crise da segurança pública, dado que é uma evidência da violência urbana, caracterizado por situações que vão desde o furto qualificado – como as famosas gangues da bicicleta, que tomam o celular do transeunte distraído –, até casos graves de violência armada, que eventualmente resultam em latrocínio”, afirmam os pesquisadores.
Operação policial em Paraisópolis, em SP; medo da violência faz com que as pessoas alterem seus comportamentos. Foto: Tiago Queiroz/Estadão
Ainda com roubos em queda, o alto patamar de casos e as formas de atuação chamam atenção em São Paulo. No período recente, imagens como a do assassinato do ciclista Vitor Medrado, de 46 anos, chocaram a população. Ele foi morto em fevereiro do ano passado com um tiro à queima-roupa perto do Parque do Povo, no Itaim-Bibi, zona sul da capital.
“Podia ser qualquer pessoa ali (no local do crime). Foi aleatório, parece uma roleta-russa o tempo todo”, disse meses depois ao Estadão a enfermeira Jaquelini Santos, de 40 anos, viúva da vítima. Ao menos três suspeitos foram presos pelo crime.
Em outro caso, a médica Marília Dalprá, de 67 anos, teve quatro costelas quebradas e parte do pulmão comprometida após ser alvo de um assalto no começo do ano passado no Parque Continental, zona oeste. Um dos assaltantes chegou a morder o dedo dela, na tentativa de levar a aliança, mas não conseguiu arrancá-la. Ao menos um suspeito foi preso.
“O que mais reorganiza a vida não é apenas a violência extrema em si, mas a expectativa de exposição à violência em situações banais do cotidiano – andar na rua, sair à noite, portar celular, usar determinados acessórios de maior valor, seguir o caminho habitual”, apontam os pesquisadores. Eles reforçam que, como consequência direta, o medo transforma a mobilidade em “cálculo permanente de autoproteção”.
“O medo da violência faz com que as pessoas alterem seus comportamentos, e, ao alterar seus comportamentos, elas têm sua mobilidade reduzida”, afirma Samira Bueno, diretora-executiva do Fórum. “Isso gera prejuízos do ponto de vista psicológico para essas pessoas e do ponto de vista econômico, porque elas deixam de consumir, deixam de circular em determinados espaços.”
O estudo “Medo do Crime e Eleições 2026: Os Gatilhos da Insegurança”, encomendado pelo FBSP ao Instituto Datafolha, foi realizado entre os dias 9 e 10 de março deste ano, com a expectativa de captar não só a vitimização da população, mas também as modalidades de crime que, em geral, são mais recorrentes quando se fala de medo.
Violência contra a mulher
A pesquisa aponta ainda que 36,5% dos entrevistados já mudaram o percurso rotineiro por medo da violência e outros 35,6% deixaram de sair à noite. Nesse caso, são medidas adotadas não só devido ao receio pelo roubo do celular, mas pelo medo relacionado a outros tipos de crime – mulheres são os principais alvos de estupro, por exemplo.
Conforme a pesquisa, a desagregação por sexo mostra que as mudanças de comportamento são mais intensas entre as mulheres: enquanto 40,9% já deixaram de sair à noite por medo, esse porcentual não supera os 30%.
“A mudança de comportamento por sexo não deve ser lida como um dado isolado, mas como a tradução prática de uma estrutura mais ampla de insegurança: as mulheres não apenas relatam mais medo, elas reorganizam mais fortemente seus deslocamentos, horários e formas de portar objetos em resposta a esse medo, revelando um efeito desigual sobre o direito à cidade”, afirmam os pesquisadores.
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Como mostrou o Estadão, São Paulo Paulo teve alta de 41% nos casos de feminicídio no primeiro trimestre deste ano, segundo dados divulgados pela Secretaria da Segurança Pública do Estado (SSP). A modalidade está em alta também em outros estados.
A pesquisa divulgada neste domingo utilizou metodologia quantitativa por meio de entrevistas pessoais. Os entrevistados foram abordados em pontos de fluxo populacional, distribuídos geograficamente nas áreas pesquisadas.
O estudo teve abrangência nacional, incluindo regiões metropolitanas e cidades do interior de diferentes portes, em todas as regiões do Brasil, em 137 municípios. A pesquisa foi realizada com a população brasileira, de 16 anos ou mais. A margem de erro para o total da amostra é de 2 pontos para mais ou para menos, considerando um nível de confiança de 95%. A amostra total foi de 2.004 entrevistas.
Segundo Renato Sérgio de Lima, diretor-presidente do FBSP, um dos objetivos do estudo foi tentar orientar um debate eleitoral mais programático. “A gente não está falando aqui de proposta para cada um dos problemas apontados, mas em indicar quais são os fenômenos que deveriam ser priorizados pelo poder público e pelos futuros candidatos, seja a governos estaduais ou ao governo federal, do ponto de vista de uma política de segurança”, diz.
O lançamento ocorre em meio a um momento de protagonismo da segurança pública. O governo federal vai lançar na próxima terça-feira, 12, um plano de combate ao crime organizado. As ações preveem um investimento de R$ 960 milhões ainda neste ano. Na última semana, o tema também foi um dos assuntos da conversa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com Donald Trump, nos Estados Unidos.



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