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Sincericídio capacitista surpreende zero pessoas com deficiência

Sincericídio capacitista surpreende zero pessoas com deficiência

 Sincericídio capacitista surpreende zero pessoas com deficiência

“Eu não posso obrigar um profissional e falar assim, você vai trabalhar lá com deficientes. Se falasse isso para mim eu estaria fora da Prefeitura”, declarou o secretário de Esportes de São Caetano do Sul, Mauro Roberto Chekin. Foto: Reprodução.

Declarações feitas nesta terça-feira, 5, pelo secretário de Esportes de São Caetano do Sul, Mauro Roberto Chekin, durante uma audiência pública na Câmara da cidade, chocam e surpreendem somente quem não vivencia diariamente as barreiras impostas à população com deficiência. Para as pessoas com deficiência, o sincericídio capacitista do secretário é só mais um entre tantos que são proferidos nos bastidores, nas conversas íntimas e, infelizmente, nas reuniões fechadas para tomar decisões.

“Nós temos um problema muito grande com autista e qualquer deficiente. Perdoem, mas eu não posso esconder as coisas. Veio uma mãe que quis uma inclusão com a filha dela na aula de natação. A menina usa a fralda. Como é que eu posso pôr a menina dentro da água de fralda? Eu não sei como é que eles fazem. Não temos condição. Com fralda. Então nós temos que orientar a mãe a comprar essa fralda de natação. Porque a menina não tinha. E essa mesma menina, quando começou a aula, começou o barulho, ela saiu correndo da piscina se encostou num canto e tapou os dois ouvidinhos porque ela não conseguia ver isso. Hoje, com o problema da inclusão social, que eu acho importante acho, que tem que ser feita, mas nós temos que tomar muito cuidado com os esportes, principalmente. Eu não vou falar nem com os esportes, com as aulas de educação física em geral, porque não são todos os profissionais que são capacitados a fazer isso. Vou contar uma experiência minha. Quando fazia educação física, fazia parte do nosso currículo da faculdade que a gente tinha que trabalhar com deficientes e eram deficientes físicos, não deficientes de outra forma. Nós fomos um dia fazer uma aula e eu entrei na piscina, que era aula de natação, e saí da piscina, e falei ‘se for para eu trabalhar desse jeito, não quero nunca mais voltar aqui. A minha condição psicológica é muito fraca para esse tipo de coisa. Eu fui convidado para ir para a Olimpíada junto com o CPB (Comitê Paralímpico Brasileiro). Eu falei ‘não vou, eu não consigo’. Eles, inclusive, se tratam de maneiras muito afetiva, mas eu não consigo. Então, mediante disso, temos que ver quem é o profissional que quer trabalhar com isso. A inclusão é um dever do Estado, mas não é um dever meu, pessoa física. Eu não posso obrigar um profissional e falar assim, você vai trabalhar lá com deficientes. Se falasse isso para mim eu estaria fora da Prefeitura”, disse Chekin.

Diante da avalanche de despautérios, estultícias, sandices alardeadas pelo secretário, a vereadora Bruna Biondi (PSol), com uma nítida expressão de incredulidade, se viu obrigada a explicar o óbvio. “Mas secretário, não é sobre querer. Inclusão tem que ser garantida. Não tem opção dos profissionais quererem ou não quererem trabalhar com inclusão”, um esclarecimento que ainda precisamos fazer todos os dias.

Ouço constantemente bobagens do mesmo nível e também piores do que as afirmações de Mauro Roberto Chekin, sempre com o argumento “estou falando só para você”, o que me parece ainda pior, considerando que sou um pessoa com deficiência e um jornalista que atua especificamente nesta temática. Sempre rebato imediatamente e, conforme o grau de intimidade, uso franqueza ríspida ou clareza seca.

A Prefeitura de São Caetano, que tem uma Secretaria Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência ou com Mobilidade Reduzida (SEDEF), divulgou posicionamento a respeito das falas do secretário Mauro Roberto Chekin, mas não há qualquer citação a respeito de uma possível exoneração do secretário de Esportes, exatamente porque, nos bastidos, nas conversas sigilosas, fechadas, ninguém está realmente preocupado com declarações capacitistas. Os ‘deficientes’ sequer existem nesses encontros.

Nota da Prefeitura de São Caetano – “A Prefeitura de São Caetano do Sul possui um compromisso histórico com as políticas públicas de inclusão e com a promoção dos direitos das pessoas com deficiência, pauta tratada de forma prioritária pela administração municipal em diferentes áreas, como saúde, educação, esporte e assistência social.

O município mantém investimentos contínuos em estruturas, programas e parcerias voltadas à inclusão, sendo a primeira cidade do Grande ABC a contar com uma Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência ou com Mobilidade Reduzida.

No último dia 25 de abril, a Prefeitura inaugurou o Cuidar (Complexo Unificado de Inclusão, Desenvolvimento, Apoio e Reabilitação), complexo moderno e especializado voltado ao atendimento de pessoas com deficiência e em processo de reabilitação, ampliando a rede municipal de acolhimento e assistência especializada, além de qualificar o atendimento.

São Caetano também desenvolve ações permanentes de inclusão na rede municipal de ensino, por meio do NAEI (Núcleo de Apoio à Educação Inclusiva), além de manter e ampliar parcerias com instituições de referência, como APAE, AACD, Semeador e Comitê Paralímpico Brasileiro, fortalecendo políticas públicas voltadas à acessibilidade, autonomia e qualidade de vida.

A administração municipal entende que a pauta da inclusão exige evolução constante, inclusive na superação de conceitos historicamente arraigados na sociedade. Os avanços conquistados nos últimos anos são inegáveis, mas o desafio continua permanente e coletivo. Neste processo, erros, apesar de imperdoáveis, são compreensíveis, dada a complexidade e importância desta pauta.

A Prefeitura seguirá investindo fortemente em ações, programas e políticas públicas que promovam respeito, inclusão, acolhimento e garantia de direitos às pessoas com deficiência, fortalecendo uma cidade cada vez mais acessível e inclusiva para todos”.

Posicionamento do Ministérios dos Esportes – “O Ministério do Esporte repudia com veemência as declarações do secretário de Esporte de São Caetano do Sul, por seu caráter profundamente capacitista, incompatível com os princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana, da inclusão e do respeito às pessoas com deficiência.

É dever do poder público garantir acesso, acolhimento, oportunidades e participação plena das pessoas com deficiência em todas as dimensões da vida social, inclusive no esporte, instrumento reconhecido de cidadania, desenvolvimento humano e inclusão social.

O Brasil possui uma das legislações mais avançadas do mundo na proteção dos direitos das pessoas com deficiência, assegurados pela Constituição Federal, pela Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e pela Lei Brasileira de Inclusão. Nenhuma autoridade pública pode se afastar desses princípios ou contribuir para a reprodução de preconceitos e estigmas.

O Ministério do Esporte reafirma seu compromisso com a promoção do esporte inclusivo, do paradesporto e de políticas públicas que garantam respeito, autonomia e oportunidades para todas as pessoas.

Diante do ocorrido, o Ministério – por meio da Secretaria Nacional de Paradesporto – fará contato institucional com a Prefeitura de São Caetano do Sul, colocando à disposição materiais informativos, orientações técnicas e acesso aos programas federais voltados à inclusão e à promoção dos direitos das pessoas com deficiência, entendendo que a informação e a conscientização também são instrumentos fundamentais para o combate ao capacitismo.

O esporte brasileiro deve ser espaço de inclusão, diversidade, respeito e dignidade para todos”.

Declaração do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) – “O Comitê Paralímpico Brasileiro manifesta seu mais veemente repúdio às declarações proferidas pelo secretário municipal de Esporte, Lazer e Juventude de São Caetano do Sul, senhor Mauro Checkin, durante audiência pública realizada em 29 de abril de 2026, na Câmara dos Vereadores de São Caetano do Sul, nas quais se referiu à inclusão pelo esporte como um “problema”.

A fala é discriminatória e inadmissível, revela desconhecimento sobre o papel transformador do esporte na promoção da cidadania, da dignidade e da igualdade de oportunidades para pessoas com deficiência. A inclusão é um direito e um compromisso constitucional e civilizatório que deve ser defendido e promovido por todos os agentes públicos.

Destaca-se ainda que a cidade de São Caetano do Sul tem a sua história vinculada ao Movimento Paralímpico nacional. O munícipio já foi um dos polos de treinamentos das Seleções Brasileiras de atletismo e natação paralímpicos antes da construção do Centro de Treinamento Paralímpico Brasileiro, na capital paulista, além de se manter como moradia de diversos atletas paralímpicos da atualidade. Firmou ainda recentemente uma parceira com o próprio Comitê Paralímpico Brasileiro, por meio da sua área de Educação Paralímpica, para capacitação de professores de Educação Física da rede escolar municipal.

O esporte paralímpico brasileiro é hoje referência mundial pelos resultados esportivos bem como pelo impacto social que gera diariamente em milhares de vidas em todo o país. Tratar a inclusão como obstáculo desconsidera avanços históricos construídos com esforço coletivo e desrespeita atletas, profissionais e toda a comunidade de pessoas com deficiência.

Espera-se de gestores públicos responsabilidade, preparo e compromisso com políticas que ampliem o acesso e não que reforcem preconceitos ou retrocessos. Declarações dessa natureza não contribuem para o debate público e tampouco refletem os valores que devem nortear a gestão do esporte no Brasil.

O Comitê Paralímpico Brasileiro reafirma seu compromisso inegociável com a inclusão, com o desenvolvimento humano por meio do esporte e com a construção de uma sociedade mais justa, acessível e igualitária”.

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