A economia brasileira registrou perda de fôlego desde a última reunião do Copom, abrindo espaço para que o Banco Central prossiga com o ciclo de cortes na taxa Selic. No entanto, o fato de o país crescer em ritmo mais lento, por si só, não garante que os juros possam cair de forma ilimitada.
A questão fundamental para os analistas é determinar se a desaceleração será suficiente para reconduzir a inflação à meta estabelecida, reancorar as expectativas do mercado e preservar a credibilidade da política monetária. Caso a atual dinâmica da dívida pública persista, ela atuará na direção contrária, mantendo as projeções inflacionárias pressionadas e podendo afetar também o câmbio.
Nesse cenário de vulnerabilidade, parte da desinflação gerada pela demanda interna mais fraca acaba sendo neutralizada, o que estreita consideravelmente o espaço para reduções mais expressivas da taxa básica de juros. Esse risco ganhou relevância com a alteração do panorama externo, marcado por um cenário desafiador para a moeda norte-americana.
A conjuntura internacional foi impactada pelas decisões e sinalizações do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, que elevou os juros e indicou que eles deverão permanecer em patamares restritivos por um período prolongado. A alta de 25 pontos-base levou a faixa dos Fed Funds para entre 3,75% e 4%, acompanhada por uma revisão para cima da estimativa de juro neutro.
Para o Brasil, a combinação de um dólar mais forte com um diferencial de juros menor reduz o suporte externo para o real. Somada às incertezas fiscais domésticas, essa configuração pode anular parte dos efeitos desinflacionários da atividade fraca e estabelecer um limite claro para o recuo da Selic.
Apesar de todas as adversidades globais e da baixa visibilidade sobre a trajetória fiscal do país, o Copom optou por reduzir a Selic em 25 pontos-base, fixando-a em 13,75%. O comitê demonstrou conforto em dar continuidade ao processo de flexibilização monetária, desde que não ocorra uma deterioração adicional nos indicadores.
Em última análise, o limite para a queda dos juros dependerá fundamentalmente de uma trajetória fiscal sólida capaz de estabilizar a dívida pública. Sem essa garantia, o prêmio de risco e o juro neutro continuarão elevados, mostrando que a restrição principal para a política monetária virá da credibilidade macroeconômica e não apenas da perda de ritmo da atividade econômica.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
