Para quem vive no Brasil, uma avalanche nas montanhas do Himalaia pode parecer um acontecimento distante. No entanto, o desastre registrado no Nepal no final de agosto serve como um alerta importante para olharmos mais de perto para a Cordilheira dos Andes. Em 26 de agosto, um deslizamento de gelo e rocha nas proximidades do Langtang Lirung provocou um grande fluxo de água, sedimentos e detritos que devastou comunidades e infraestruturas nos vales, resultando em centenas de mortes e milhares de desaparecidos.
Tragédias dessa magnitude decorrem da combinação de fatores geológicos, sísmicos, hidrológicos e climáticos. Contudo, especialistas apontam que o aquecimento global está redefinindo as regiões de alta montanha de maneira acelerada, alterando de forma drástica o permafrost, as geleiras, as encostas, os rios e a formação de novos lagos. Esse processo não se restringe à Ásia, pois os Andes sul-americanos enfrentam transformações semelhantes e preocupantes.
Dados obtidos por meio de imagens de satélite e mapeamentos do MapBiomas detalham a intensa perda de superfície de gelo na cordilheira sul-americana entre 1985 e 2024. O levantamento indica reduções drásticas na Bolívia, no Equador e na Colômbia. A Venezuela, por sua vez, destaca-se como a primeira nação andina a perder completamente suas geleiras permanentes. No Chile, país que concentra a maior extensão glaciar da região, a perda ultrapassou trezentos e quarenta mil hectares no período avaliado.
O Peru também sofreu impactos severos, registrando queda de mais da metade de sua superfície glaciar em quatro décadas, enquanto a área de lagunas de origem glacial aumentou expressivamente. Com o recuo do gelo e o degelo do permafrost, as encostas tornam-se altamente instáveis e vulneráveis a rupturas, capazes de gerar fluxos torrenciais de detritos que descem os vales destruindo tudo em seu caminho.
A história andina guarda registros dramáticos desse perigo. No Peru, a região de Áncash possui um longo histórico de aluviões provocados por desprendimentos de gelo e rocha, a exemplo das tragédias em Huaraz e Yungay em décadas passadas, além de eventos mais recentes em 2025. Esses episódios evidenciam o enorme impacto humano de tais fenômenos, capazes de modificar a paisagem e dizimar localidades inteiras em poucos minutos.
Para o Brasil, a conservação das geleiras andinas tem relevância direta, uma vez que parte delas alimenta cabeceiras que desaguam na bacia amazônica. Pesquisas científicas demonstram a forte conexão entre o ciclo hidrológico da Amazônia e o regime das montanhas andinas. Compreender e monitorar essas mudanças por meio de ferramentas espaciais é fundamental para prever desastres, salvaguardar vidas humanas e assegurar a estabilidade dos recursos hídricos na América do Sul.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
