A cada triênio, a divulgação dos resultados do Pisa provoca debates intensos e um ritual recorrente de autoflagelação em torno da qualidade do ensino brasileiro. No entanto, o equívoco começa na própria premissa de tentar transformar uma avaliação amostral em um placar esportivo, como se o mundo da educação estivesse disputando um campeonato mundial.
O programa da OCDE tem como principal utilidade a análise aprofundada de dados para compreender tendências globais ou trajetórias específicas de cada nação. O erro crasso reside na criação de rankings superficiais e comparações lineares entre realidades drasticamente heterogêneas, ignorando que médias simples costumam ocultar nuances fundamentais.
Fatores estruturais externos influenciam diretamente o desempenho escolar, tais como a situação econômica, fluxos migratórios, conflitos, gestão pública e desigualdades sociais profundas. Por exemplo, comparar o Brasil com uma cidade-estado rica como Singapura ou com nações que possuem índices de Gini muito mais baixos desconsidera o impacto dramático da desigualdade na trajetória educacional.
Além disso, o teste pode sofrer distorções geopolíticas, uma vez que alguns países participam apenas com províncias selecionadas ou regiões específicas, enquanto outros enfrentam oscilações midiáticas precipitadas sobre modelos de ensino aclamados ou criticados, como ocorreu recentemente com a Finlândia.
Em vez de buscar soluções milagrosas por meio de viagens rápidas para replicar o modelo do país campeão da vez, o Brasil precisa investir de forma consistente no fortalecimento da pesquisa educacional e na formação rigorosa de especialistas e pesquisadores.
Desafios concretos, como o impacto do uso excessivo de celulares e redes sociais na compreensão de textos, exigem políticas públicas embasadas em evidências. Tratar o Pisa como uma ferramenta complexa de diagnóstico, e não como uma Copa do Mundo, é o primeiro passo para construir soluções educacionais genuinamente voltadas para a realidade do país.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
