Na zona rural de Caicó, município localizado a 267 km de Natal, no Rio Grande do Norte, o agricultor Francisco Elpídio de Medeiros, de 76 anos, recorre aos chamados oráculos da natureza para tentar mensurar os impactos de fenômenos climáticos, como o El Niño, no período chuvoso do distrito de Palma.
Conhecido na região como um profeta da chuva, Elpídio estudou formalmente até a oitava série, mas acumulou meio século de observações empíricas do bioma da caatinga. Em sua propriedade de 85 hectares, ele mantém um pequeno rebanho de gado leiteiro e cultiva espécies como feijão, milho, batata-doce e melancia.
Entre os métodos tradicionais utilizados pelo sertanejo, destaca-se a observação da jurema e do xiquexique. Segundo o agricultor, plantas conseguem captar a umidade do ar por meio de uma espécie de antena biológica, indicando a iminência de precipitações com o surgimento de brotos ou tufos florais brancos.
O comportamento da fauna local também compõe o arcabouço de previsões do produtor rural. Sinais como o acasalamento da ave siriema em novembro, o revestimento de cupinzeiros e o aumento na atividade de enxames de abelhas eichu funcionam como indicativos de que a chuva está a caminho.
Além disso, Elpídio analisa as chamadas cinzas de setembro, uma bruma matinal observada nos morros da região no início do mês. Para ele, a intensidade e a qualidade dessas névoas nos primeiros dias do mês predizem como se comportarão as precipitações ao longo dos meses seguintes do ano.
A área onde o agricultor vive e cultiva serve de base para pesquisas da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). O trabalho de campo e a preservação de sementes nativas realizados por Elpídio auxiliam tanto os estudos acadêmicos quanto ONGs ambientalistas, reforçando a resiliência da vegetação do semiárido frente aos desafios climáticos contemporâneos.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
