Em 1997, o cientista político Gary Cox publicou ‘Making Votes Count’, o livro que se tornou a referência sobre como as regras eleitorais moldam o comportamento do eleitor. A ideia central aponta que o voto útil não é um ato de traição às convicções, mas um cálculo estratégico. O eleitor acaba por abandonar o candidato de sua preferência quando percebe que ele não tem chance de vitória e que insistir nessa escolha pode facilitar o triunfo justamente daquele que mais rejeita.
Para que esse cálculo aconteça, Cox destaca que três condições precisam estar presentes: o eleitor se importa com o resultado, sabe quem é viável e quem não é, e essa informação é compartilhada por todos por meio das pesquisas eleitorais. Quando esses ingredientes se combinam, a disputa converge para os dois principais nomes com chances reais, enquanto os demais encolhem, fenômeno chamado pelo autor de ‘deserção estratégica’.
As últimas três rodadas da Quaest em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Pernambuco e Distrito Federal revelam esse mecanismo em funcionamento. Ao somar as intenções de voto de Augusto Cury, Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos — os nomes que disputam o espaço fora da polarização —, o padrão demonstra de forma consistente que a terceira via murcha e o voto migra para o candidato que já liderava no território.
Em Pernambuco, por exemplo, o bloco de candidatos fora da polarização foi de 10% para 6%. No mesmo período, o presidente Lula subiu de 51% para 58%, enquanto Flávio Bolsonaro oscilou de 21% para 20%, elevando a vantagem do petista de 30 para 38 pontos. No Rio de Janeiro, o movimento ocorreu no sentido oposto: a terceira via caiu de 12% para 8%, e Flávio Bolsonaro subiu de 34% para 38%, elevando sua vantagem de 2 para 7 pontos.
Em São Paulo, o bloco alternativo passou de 15% para 13%, enquanto Flávio Bolsonaro avançou cinco pontos, indo de 31% para 36%, enquanto Lula manteve-se em 30%. No Distrito Federal, a terceira via caiu de 24% para 16%, e Flávio cresceu para 38%, abrindo vantagem sobre Lula. Minas Gerais figurou como exceção, onde a terceira via diminuiu, mas Lula e Flávio cresceram na mesma proporção, mantendo o cenário mais equilibrado e sem definição clara de voto útil.
Dessa forma, o voto útil atua fortalecendo quem já lidera onde o eleitor percebe que a disputa está definida. No Nordeste, o movimento amplia a vantagem de Lula, enquanto no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Brasília beneficia Flávio Bolsonaro, drenando a terceira via conforme as previsões teóricas de Gary Cox.
Fonte: g1.globo.com
