A mesma ala política que por anos utilizou boatos de cunho religioso para atacar adversários enfrenta agora uma situação semelhante. Circula recentemente uma desinformação falsa afirmando que o senador Flávio Bolsonaro (PL) pretenderia resgatar um projeto para remover Nossa Senhora Aparecida do posto de padroeira do Brasil.
Para o sociólogo inglês naturalizado brasileiro Paul Freston, pioneiro nos estudos sobre pentecostalismo e política, o cenário atual demonstra que a direita está provando do próprio veneno. Segundo o especialista, o feitiço acabou se voltando contra o feiticeiro em meio à reta final das discussões eleitorais.
Freston recorda que a narrativa falsa de que o presidente Lula (PT) fecharia igrejas foi reciclada sistematicamente em diversos pleitos, a começar por 1989. Naquela época, os atritos entre setores católicos e o bloco evangélico emergente já mobilizavam debates sobre supostos esquemas para estabelecer o catolicismo como religião oficial do Estado.
O pesquisador aponta que a aparição de Aparecida com tanto destaque no final da disputa está ligada à crítica evangélica tradicional à idolatria. Nos setores mais extremados, há ainda componentes de rejeição cultural que acabam gerando atritos profundos entre as duas maiores correntes cristãs do país na praça pública.
Ao comentar as declarações ligando o país a figuras religiosas, Freston avalia que menções como ‘o Brasil para Cristo’ funcionam como uma afirmação implícita da centralidade evangélica na vida pública. Para ele, embora a retórica tenha apelo entre fiéis adeptos de uma visão mística, sua aplicação prática costuma esbarrar na realidade política e gerar desgaste.
Por fim, o sociólogo destaca que o desgaste em torno de figuras da família Bolsonaro nas igrejas pode refletir tanto os escândalos acumulados quanto passos em falso recentes. Ao tentar se defender de acusações de intolerância, episódios mal conduzidos acabam minando a capacidade de trânsito que o grupo historicamente mantinha entre diferentes matrizes do mundo cristão.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
