Vivenciamos uma das épocas mais peculiares da história contemporânea, onde o acesso abundante à informação contrasta diretamente com a disposição crescente de algumas parcelas da população para rejeitar o saber. Não se trata da ignorância natural que decorre da falta de oportunidades ou de estudo, mas de uma postura deliberada de recusa à evidência, transformando opiniões infundadas em verdades absolutas e o desconhecimento em motivo de orgulho.
O escritor Valter Hugo Mãe tem provocado debates profundos sobre esse cenário por meio de seu romance O Século dos Imbecis. Segundo o autor, a grande contradição da atualidade reside no fato de que, embora cercados por possibilidades extraordinárias de aprendizado, a sociedade nem sempre se torna mais sábia. A gravidade se instala quando a ignorância deixa de ser uma condição provisória e passa a ser glorificada, tentando se impor ativamente ao conhecimento.
A discussão evidencia que não saber determinado assunto é perfeitamente normal e humano. O cerne do problema está na diferenciação entre declarar ‘eu não sei’ — o que demonstra curiosidade e abre portas para o aprendizado — e afirmar ‘eu não quero saber’, postura que consolida a resistência intelectual. Indivíduos emocionalmente apegados às próprias convicções rejeitam investigações e contestações por medo de abandonarem falsas certezas.
Essa dinâmica social gera uma cultura na qual a dúvida passou a ser vista equivocadamente como fraqueza. Há exigências constantes por opiniões imediatas, julgamentos precipitados e posturas inflexíveis. Convicções pessoais, repetições de mentiras ou o volume de vozes alinhadas a um pensamento não transformam, por si sós, uma opinião em fato científico ou histórico validado.
Quando a ignorância deixa de ser um mero limite individual e passa a ser celebrada como virtude, ela se torna um critério perigoso para orientar escolhas coletivas, políticas e democráticas. A escolha por ignorar fatos consolidados e dados empíricos afeta toda a sociedade, transformando debates públicos em embates superficiais desprovidos de pensamento crítico e responsabilidade coletiva.
Por fim, resgatar a curiosidade e a disposição para aceitar a correção de rumos diante da realidade é o grande desafio contemporâneo. Como aponta a reflexão, a inteligência reside na capacidade de mudar de ideia e manter as portas abertas ao aprendizado, combatendo o orgulho defensivo que paralisa o desenvolvimento intelectual e social.
Fonte: www.campograndenews.com.br
