Há pouco mais de meio século, a cidade de São Paulo ainda mantinha fortes vínculos com o rural em seu entorno e em suas margens. Mesmo hoje, a metrópole não é inteiramente urbana, visto que suas bordas, a exemplo da subprefeitura de Parelheiros, seguem vivas como territórios de ruralidade em disputa. Ao observar o espraiamento urbano marcado pela exclusão, é possível identificar diferentes momentos e formas de nomear esse processo, desde a ideia inicial de subúrbio até a consolidação da periferia a partir da década de 1970.
Atualmente, essa expansão excludente e hierárquica em relação ao meio ambiente rural frequentemente vem sendo chamada de racismo ambiental. O conceito revela como a população racializada e pobre é sistematicamente empurrada para territórios de maior risco ecológico, desprovidos de infraestrutura e de serviços públicos básicos. Frente a esse cenário, o ideal de resiliência ganhou força em políticas públicas, exigindo dos sujeitos vulnerabilizados uma capacidade ininterrupta de adaptação, como se fosse individualmente possível superar condições estruturantes de escassez e superexploração.
Enquanto as cidades subdesenvolvidas se curvaram para o mercado e para o carro, fragmentadas pela privatização dos bens públicos, nelas se reinventam outras espacialidades, convívios e trocas. Estudos com foco em mulheres agricultoras em São Paulo mostram que a vizinhança tece redes de confiança por meio de práticas de cooperativismo, mutirões de colheita, caronas solidárias e relações com os animais, sustentando a vida coletivamente e desenhando a cidade a partir de outra perspectiva.
Desenhar o espaço urbano a partir dessas mulheres constitui uma trincheira contra violências que extrapolam o código penal, enfrentando dinâmicas difusas inscritas na relação hierarquizada com o ambiente urbano. As agricultoras do extremo sul rural narram violências que atravessam o acesso desigual à cidade, a ausência de saneamento adequado, a dificuldade de acesso a políticas públicas e o medo de agressões físicas, simbólicas, de gênero e ambientais, como os desmatamentos que ameaçam suas vidas.
Essas violações de direitos não nomeadas e silenciadas afetam diretamente o que se define como os quatro Ts: a relação com a Terra, com o Trabalho, com o Transporte e com o Tempo. Com frequência, o termo violência urbana é associado estritamente à criminalidade das periferias, reforçando uma lógica punitivista e um imaginário criminalizante que precisam ser tensionados para além da segurança pública e da visibilidade cotidiana.
Por fim, o texto aponta que o que unifica essas múltiplas formas de violência é a sua funcionalidade ao projeto neoliberal. As moradoras de territórios rurais e agricultoras posicionam-se não como resilientes, mas como resistentes, abrindo caminho para uma nova agenda urbana que exija a transformação das estruturas geradoras de desigualdade e coloque a vida humana e não humana no centro.
Fonte: www.campograndenews.com.br
