O recém-empossado presidente da Colômbia, Abelardo de la Espriella, tem enfrentado forte repercussão pública após divulgar gravações nas quais aparece caminhando entre cadáveres de supostos guerrilheiros mortos em operações militares. As promessas de campanha de uma postura firme contra o crime foram decisivas para sua vitória nas eleições de junho, mas o uso de tais símbolos visuais reabre feridas em uma nação marcada por décadas de conflito armado.
A controvérsia ganhou contornos jurídicos quando um juiz em Bogotá ordenou a ocultação temporária das publicações. Figuras institucionais, como a Defensora do Povo Iris Marín, criticaram severamente a iniciativa, afirmando que a dignidade humana não cessa com a morte e que o governo não deve buscar demonstrar crueldade extrema. Em contrapartida, membros do alto escalão do governo, a exemplo do ministro do Interior Rodrigo Lara Restrepo, defenderam que o Estado cumpre seu dever constitucional de combater o terror.
Especialistas em ciência política apontam que a exibição dos corpos faz parte de uma estratégia calculada para projetar poder e intimidação. Para analistas como Carlos Cortés e Elizabeth Dickinson, a narrativa adotada por Espriella rompe com a política de negociação de seu antecessor, Gustavo Petro, priorizando uma demonstração ostensiva de controle estatal e de força bélica frente às demandas populares por ordem pública.
As imagens foram registradas após ações militares expressivas, incluindo uma operação em Guaviare que resultou na morte de dezenas de dissidentes das Farc, além de outra ocorrência no norte do país. Enquanto o chefe de Estado reforça sua imagem de liderança inflexível, vestindo coletes à prova de balas e adotando retórica dura contra o narcoterrorismo, a oposição classifica a estratégia como um autoritarismo perigoso e uma forma de espetacularização mórbida.
O fenômeno de ostentar o poderio militar não se restringe ao território colombiano e encontra paralelos em outras nações da América Latina e do exterior. A adoção de táticas visuais severas por líderes regionais evidencia uma tendência de governos que respondem à crise de segurança pública com demonstrações drásticas de força, gerando debates profundos sobre os limites éticos e institucionais da ação estatal.
Apesar de o material ter agradado a uma parcela da população que prioriza a segurança urbana, organizações e analistas alertam para os riscos históricos associados a esse tipo de propaganda. Na Colômbia, a ênfase na contagem de mortes e na exibição de corpos evoca episódios passados do conflito armado que resultaram em graves violações e na perda de vidas inocentes, acendendo alertas para o futuro da estabilidade democrática do país.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
