Um encontro mundial do Conselho Internacional de Museus realizado em Oslo, na Noruega, serviu de palco para a apresentação de avançadas pesquisas que reforçam o pioneirismo do artista franco-brasileiro Hercule Florence na invenção da fotografia. Nascido na França e radicado no interior paulista, Florence construiu grande parte de sua obra longe dos grandes centros europeus e foi o primeiro a utilizar a palavra “fotografia” para descrever o processo de fixar imagens através da luz.
O esforço científico reuniu descendentes do inventor, o chefe do departamento de fotografia do Instituto Moreira Salles e um pesquisador do museu americano Getty. Juntos, eles detalharam resultados de análises conduzidas em laboratórios de Portugal e dos Estados Unidos que atestam que os registros produzidos por Florence no início do século XIX constituem, de fato, objetos fotográficos legítimos e consolidados.
A base científica para essa comprovação veio de exames realizados há três anos no laboratório Hércules, em Évora, Portugal. Os testes demonstraram que os impressos criados pelo artista com o auxílio de nitrato de prata e cloreto de ouro representam os objetos fotográficos mais antigos visíveis a olho nu, colocando-o cronologicamente à frente de outros nomes consagrados da história da imagem, como o britânico William Henry Fox Talbot e o francês Louis Daguerre.
Enquanto o francês Joseph Nicéphore Niépce utilizou um derivado de petróleo chamado betume da Judeia em 1826 para fixar uma imagem de longa e difícil captação, Florence aprimorou seus métodos nos anos seguintes no interior do Brasil. Utilizando uma câmera rudimentar feita com caixa, paleta de pintor, lente de binóculo e espelho, ele registrou construções locais e, posteriormente, passou a dominar a química da prata e do ouro para preservar seus trabalhos.
Curiosamente, os primeiros usos práticos dessa tecnologia pioneira envolveram a criação de molduras para rótulos de farmácia e o layout de um diploma maçônico. No entanto, o valor histórico dessas criações reside no marco tecnológico que representam para o desenvolvimento mundial da imagem, sendo comparadas por especialistas ao impacto de grandes inovações contemporâneas.
As três peças sobreviventes daquele período chegaram aos dias atuais porque foram guardadas em meio às páginas da autobiografia do artista, protegidas da luz solar, da umidade e do calor. Para os especialistas envolvidos, desvendar e validar rigorosamente esse acervo não se resume a uma disputa geopolítica semelhante à da invenção do avião, mas busca corrigir uma narrativa eurocêntrica, evidenciando que o desenvolvimento tecnológico e as vanguardas dos trópicos caminhavam lado a lado com os centros hempiristas da época.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
