Últimas notícias
BRASIL

Tudo bem em Macondo

Artigo de opinião reflete sobre a normalização dos absurdos cotidianos e sociais no Brasil, traçando paralelos com a literatura de Gabriel García Márquez.

Compartilhe: WhatsApp Facebook X
Tudo bem em Macondo

A sensação de viver em uma grande Macondo com absurdos reais potencializados é o ponto de partida de uma reflexão sobre o cotidiano brasileiro atual. Em línguas de raízes africanas da etnia banto, a palavra makondo significa bananas, o que remete à potência agrícola tanto da Colômbia quanto do Brasil. No entanto, o que mais aproxima a realidade brasileira do universo macondiano não é a produção agrícola, nem a chuva persistente, mas a extraordinária capacidade coletiva de assistir a arbitrariedades sem interromper o café da manhã.

Na atmosfera descrita, o extraordinário chega devagar, instala-se na sala e pede açúcar. As pessoas estranham no início, mas logo se acostumam. Quando o absurdo permanece tempo suficiente, perde o assombro e deixa de ser visto como anomalia para se transformar em paisagem. Essa metamorfose é apontada como uma das mais perigosas, pois anula o espanto diante da injustiça e da violência cotidiana.

Gabriel García Márquez já demonstrava como os países podem adoecer de memória. A história passa, deixa mortos, desaparecidos e trabalhadores esmagados pela engrenagem do lucro, recolhendo-se em seguida como uma maré envergonhada. A companhia bananeira, em Macondo, simboliza a chegada da promessa de progresso acompanhada pela exploração e pelo silêncio. No contexto nacional, a violência se acumula sem se sedimentar, e a notícia de ontem é rapidamente empurrada para o fundo pelas urgências do dia seguinte.

O Brasil repete ciclos de chuvas intermináveis, cidades que crescem sobre ruínas e populações vulneráveis que esperam por promessas de futuro. Há mortos que não descansam por falta de justiça e vivos que caminham entre escombros. No entanto, o texto aponta uma diferença intrigante: enquanto em Macondo a solidão parecia uma condição dos habitantes, no Brasil ela se assemelha a uma escolha coletiva, alimentada por bolhas de certezas onde já não se consegue escutar o contraditório.

A solidão contemporânea não é a ausência de pessoas, mas a ausência de encontro genuíno. Os ciclos históricos retornam sob novas roupas, com a exploração mudando de discurso e o poder trocando de máscara enquanto conserva a mesma cicatriz. A população vai se habituando ao absurdo da mesma forma que se acostuma ao calor excessivo, integrando o inaceitável ao mobiliário da casa sem questionar quem o trouxe.

Por fim, lembra-se que uma das funções da literatura e da reflexão crítica é devolver às coisas o seu espanto original. Macondo ensina a desconfiar do momento em que o inaceitável passa a parecer normal. O alerta final ressoa como um chamado para que os cidadãos interrompam a apatia diária, resgatem a memória coletiva e recusem a entrega do país aos interesses corporativos e à repetição cega da história.

Fonte: www.campograndenews.com.br

Escrito por

Jeder Fabiano