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Perseguição à família durante a ditadura militar levou Henrique a “radicalizar”

Filho de Renê Neder, Henrique viveu a perseguição traumática da ditadura militar, terminando preso e torturado pelo DOI-CODI em 1977.

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Perseguição à família durante a ditadura militar levou Henrique a “radicalizar”

Engenheiro mecânico, economista e professor aposentado, Henrique Neder tinha apenas 11 anos quando o golpe de 1964 atingiu duramente sua família em Campo Grande. Filho do empresário Renê Neder e sobrinho de Alberto e Humberto, ele assistiu à prisão do pai e acompanhou, ainda criança, os efeitos devastadores da perseguição sobre os três irmãos. Décadas mais tarde, ao relembrar o período, descreveu o impacto com forte carga emocional, sentindo a atmosfera de exclusão e trevas que o acompanhou por toda a vida.

Segundo o relato de Henrique, os familiares possuíam posição de destaque social na capital sul-mato-grossense, mas passaram a conviver com o estigma e a exclusão por serem associados à esquerda em um ambiente político conservador. Ele recorda o clima de desconfiança e o papel de figuras que colaboravam com a repressão, como o médico Cláudio Fragelli, ligado à Ademat. Entre os episódios marcantes de humilhação pública, lembra de seu tio Alberto, um médico respeitado, sendo levado algemado em um jipe pelas ruas da cidade.

A repressão política atingiu profundamente a reputação e os negócios da família. Dos três irmãos perseguidos, Alberto era o mais politizado e recebia intelectuais de esquerda em Campo Grande. Um de seus filhos, Carlos Alberto Pletz Neder, seguiu uma sólida trajetória pública, atuando como secretário de Saúde em São Paulo, ajudando a construir o SUS e exercendo mandatos como deputado estadual até falecer em 2021.

O próprio Henrique acabou reproduzindo o confronto com o regime em sua geração. Após estudar engenharia em São Paulo e seguir para a pós-graduação na Coppe, no Rio de Janeiro, aproximou-se do movimento estudantil. Em 1977, foi preso em casa por agentes de segurança e levado encapuzado para o DOI-CODI, onde permaneceu sob tortura por dias, sendo posteriormente transferido para o DOPS.

A prisão desestruturou sua vida pessoal e profissional. De volta a São Paulo, enfrentou anos de desemprego e viveu na periferia da Zona Leste, militando em comunidades eclesiais de base. Foi nesse cenário de forte impacto psicológico e social que decidiu “radicalizar”, reagindo ao acúmulo de traumas desde a infância, acompanhando as greves do ABC paulista e a ascensão de lideranças sindicais como Lula.

Para Henrique, a trajetória da família Neder reflete um plano sistemático de perseguição e segregação. Ele relata ter descoberto mais de 40 dossiês com seu nome no Arquivo Nacional, evidenciando um monitoramento que persistiu inclusive após o fim da ditadura. A nuvem escura lançada sobre sua história continua exigindo reflexão sobre um passado traumático que moldou irremediavelmente sua identidade e escolhas de vida.

Fonte: www.campograndenews.com.br

Escrito por

Jeder Fabiano