A relação frequentemente marcada pelo distanciamento entre a sociedade e a população em situação de rua inspirou a criação da mostra artística “A alfabetização do Olhar – um ato de amor e responsabilidade”, em cartaz na capital paulista. O projeto tem como proposta central valorizar e dar visibilidade a essas pessoas, além de prestar uma homenagem à trajetória do padre Júlio Lancellotti e ao trabalho desenvolvido pela Pastoral do Povo da Rua.
A exposição está sediada na Lacerdine Galeria de Arte, situada no bairro de Higienópolis, em São Paulo, com entrada gratuita para o público até o mês de novembro. O espaço abriga mais de 100 fotografias, acompanhadas por textos explicativos, instalações, vídeos e uma série de prêmios e reconhecimentos concedidos ao padre Júlio ao longo de sua atuação social.
O acervo fotográfico conta com registros produzidos pelos profissionais Daniel Camargo Kfouri, Fernando Jenzen, Tr3ze e Victor Angelo Caldini. As imagens documentam ações e assistências promovidas por Lancellotti desde o período crítico da pandemia de covid-19, iniciada em 2020, retratando o cotidiano e as complexidades humanas dos indivíduos marginalizados.
De acordo com o curador da mostra, Geraldo Lacerdine, a autorização de padre Júlio para a realização do evento exigiu uma condição fundamental: que o protagonismo da exposição pertencesse integralmente às pessoas em situação de rua. A intenção pedagógica da mostra, segundo o religioso, é ensinar o público a enxergar essa população como seres humanos reais e plenos, distanciando-se de visões estereotipadas.
A disposição das obras explora recursos visuais para estreitar o vínculo entre os visitantes e os retratados. Um exemplo destacado são três fotografias de mulheres em situação de rua sorrindo, captadas de maneira espontânea graças a um vínculo duradouro de confiança e respeito mútuo cultivado pelos fotógrafos da Pastoral ao longo de convivências prolongadas.
O fotógrafo Tr3ze relatou que o processo de registro exige imersão e proximidade com o cotidiano dessas comunidades. Segundo ele, embora exista inicialmente um receio de exposição ou abordagem policial por parte dos fotografados, o resultado revela o forte desejo dessa população marginalizada de ser ouvida e de estabelecer um diálogo humano genuíno.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br
